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Europe by train, I: fronteiras adormecidas



Europe by train, I: fronteiras

Começo aqui uma nova série, que tem como inspiração e banda sonora a canção (experimental) dos Divine Comedy com o mesmo título.

[Bruxelas-Berlim, fins de Fevereiro 2014]
Um africano largo de corpo e de tristeza tenta dormir com uma suite para violoncelo de Bach. Estende-se à minha frente, ao lado da janela. Lá fora a Bélgica termina agora suavemente na Alemanha, onde há cem anos atrás as fronteiras ardiam e doiam. Interrompe de repente a minha paz escrevente e a tristeza desolada do meu vizinho da frente um rapaz sem rosto definido, com um livro sobre Filosofia da acção, a falar um Alemão com sotaque de Hamburg, a barba demasiado aparada para o cabelo de vegetal sanguíneo. Tive de lhe pedir que se levantasse e falámos consecutivamente em Alemão, Francês e Inglês. Mas ele falou Neerlandês com o revisor, enquanto oscilava entre ler a Filosofia da Acção e dormir. Seria um ninja teórico? Um pensador político em formação? Um activista sem metafísica ou um pensador sem realidade? Não cheguei a saber: adormeceu e fechou o livro no capítulo 5, qualquer coisa como “Objects. Reasons. Dreams” e um quarto elemento que me pareceu culinário ou chinês, ou ambos, que é financeirismo pós-maoísta.
As fronteiras entre a Bélgica e a Alemanha desaparecem, estamos quase em Aachen/ Aix, onde Carlos Magno sonhou uma Europa de pólo Norte e baseada em Roma. Penso se o sonho da UE em Bruxelas não será igual, embora tudo pareça agora remar contra a União. O sopro muito suave, quase indelével, de uma enorme transformação, suave e libertadora, como os ecos que vieram da Ucrânia por causa precisamente da mesma UE. Pensei, enquanto pedia pelos mortos pela sua liberdade num país que quer dizer “fronteira” ou “confim” (como elucidava o brilhante artigo de Jorge Almeida Fernandes no “Público” de 23 de Fevereiro de 2014), que a Europa resolver-se-á de dentro graças ao impacto de fora.
Saio do ICE, para mudar em Köln. Um cigarro leva-me a perceber que a estação é mesmo ao lado da Catedral. “Europa, porque é que tu já não te vês do alto?», oiço-me perguntar, como se fosse um verso. Não, não, é claro: o reflexo da catedral nas janelas modernas e amplíssimas da estação confirma-o. A Europa está só a respirar fundo para ganhar altura. É a sua filosofia da acção adormecida.

Comentários

Manuel Alonso disse…
A europa está só a respirar fundo, oxalá não assopre tudo o que tem e se desvaneça tépida e alva em si: um nome, europa!

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