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Crónicas de Berlinzâncio: seen at front doors

Dois dos livros na minha mesa de cabeceira, a que prefiro, entre sonhos, escritos e leituras, chamar jangada: Faust's Metropolis: A History of Berlin de Alexandra Richie; e The Guns of August, de Barbara W. Tuchman. Se no primeiro leio que Berlim deve muito da sua força humana, criativa aos estrangeiros que aqui viveram e vivem (dos huguenotes aos judeus, passando pelos "mitarbeiten" e pelos criadores estrangeiros convidados a vir para Berlim Ocidental antes da queda do Muro), no segundo leio a história de raivas acumuladas na Europa durante séculos, que explodiram na I Grande Guerra. 
E tudo isto na semana em que, contra as expectativas, os Suíços aprovaram em referendo uma limitação do número de estrangeiros a entrar e a residir no país, a partir de 2017. Logo no dia seguinte, o partido eurocéptico Alternative für Deutschland (AfD), que ficou a 0,1% de entrar no Parlamento Alemão, veio pedir uma lei igual para a Alemanha. Tudo pode ler-se aqui.
E de repente sinto-me estrangeiro em Berlim. Não foi a primeira vez, é claro, mas foi talvez a primeira em que percebi a velha máxima que Berlim não é a Alemanha, e que também a capital pensa, sente e vive diferente do resto do país. Também nesta semana, ao fazer os meus exercícios de Alemão, reparei com surpresa (e com sugestão, naturalmente) que as palavras "Ausländer" e "Zuwanderer" apareciam frequentemente nos exercícios. Comparei-os com os livros de Português Língua Estrangeira (PLE) que uso (vários). Os resultados: enquanto nos manuais de PLE lemos "ele é da Finlândia, ela é da Noruega", nos teutónicos as expressões são maioritariamente as usadas acima. Sei, naturalmente, das debilidades e dos erros desta comparação semântica (até porque Portugal fez-se precisamente na viagem e na incessante troca de culturas, muito mais do que a Alemanha). Mas também que a escolha de palavras revela muito mais do que aparenta.

Ainda sobre o Referendo suíço, no "Público" do passado Domingo, alguns  mitos foram desfeitos:
"Segundo um relatório da OCDE, a Suíça é quem mais beneficia da livre circulação. Comparando a receita fiscal obtida com os imigrantes com os custos administrativos, sociais e de infra-estruturas que lhes podem ser imputados, o saldo é positivo: pelo menos 6,5 mil milhões de francos, um número prudente por não incluir dados mais recentes, diz Thomas Liebig, o alemão autor do documento. Quatro em cada dez novas empresas abertas na Suíça são fundadas por estrangeiros, que, em 2013, criaram 30 mil novos empregos. E, segundo o Credit Suisse, um quarto do crescimento no consumo desde 2008 pode ser atribuído aos estrangeiros. “Um posto de trabalho em cada três depende das trocas com a UE. Nas exportações, a Suíça ganha um franco em três com a Europa”, diz a Economiesuisse, organização de todos os sectores económicos do país. Os estrangeiros, a maioria altamente qualificada, são 22% da força de trabalho. A livre circulação, afirma a Economiesuisse, “permite recrutar na Europa mão-de-obra especializada de que necessitamos e que não se encontra na Suíça” ("Público", 9-2-2014).

Penso que esta situação, somada às percentagens perturbadoras que os partidos eurocépticos terão nas eleições para o Parlamento Europeu, levarão a que a União Europeia arrume a casa e repense seriamente no seu futuro prático. Neste momento, e depois da sua primeira guerra financeira (e, em parte, civil), a União tem diante de si a ocasião de rever as suas próprias bases, e actualizá-las - e activá-las. Como instrumento de paz e de progresso, a União tem agora de provar que de facto é a representação dos seus princípios, e não uma máquina pesada e burocrática que vive ao sabor vário de velhos princípios e de lábeis sentimentos europeístas dos seus governos.

Ontem, depois de uma tarde a discutir isto com uma amiga portuguesa, outra suíça e outra belga, vou ao "Schokoladen" ouvir uma Lesebühne (uma leitura). E à porta do "Schokoladen" a fotografia que acompanha este texto.
Como é que se combate a vaga fascistóide do referendo Suíço e de tudo o mais que o acompanha? Com a diferença. E é na arte que o homem não só aprende, mas atravessa as portas para a diferença (e foi precisamente a diferença que os Nazis combateram a partir de 1933: a exposição-tema do ano passado em Berlim chamava-se precisamente "Diversidade Destruída"). 
Esta fotografia deveria estar em cada porta de cada casa, de cada lugar, que se recusam a leis de exclusão. E ao vê-la, não me senti estrangeiro. Mas mais uma vez e sempre, cidadão desta cidade onde a liberdade foi esmagada e reinventada durante o século XX. E onde, em abono da verdade, devo acrescentar, sempre senti que a minha história, a minha formação, a minha experiência, a minha diversidade, contavam e eram ouvidas.

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