Avançar para o conteúdo principal

Crónicas de Berlinzâncio: se Evitar, não evite



Uma varanda para fumadores. Não nos conhecíamos: era argentino. 
- Ah, tens muita sorte, disse eu a desbloquear o gelo, apesar de ser uma das noites mais quentes de Berlim: tens a Evita e o Papa.
Não pareceu gostar:
- Não sou peronista e não sou católico.
Já era tarde. Já não podia evitar, já tinha Evitado. Não me lembrava de nada mais cómico para resolver a piada anterior; não tenho piada em Inglês. Tenho algum sentido de humor em Francês, em italiano disparato. Só falo em Alemão depois da terceira cerveja, embora admita que é uma língua prática para horizontais verticais.
Nem dançar salsa me salvou da piada. Teria sido melhor dançar um minuet de Mozart ou de Haydn: as mesuras na pista de dança resolveram várias guerras europeias; talvez o fizessem com uma guerra atlântica (e logo a imagem de Thatcher a dançar com o presidente argentino antes da paz nas Maldivas me entreteve o suficiente para tentar uma segunda aproximação):
- Um cigarro?
Sim. Mas já era tarde, e o resto do povo estava todo na varanda, onde não cabiam três e estavam vinte.
- Desculpa lá há pouco. É que a minha família teve de sair do país, coisas complicadas. E falarem-me logo disso é tão habitual que reajo logo.
E de repente, numa varanda apertada e nevosa em Berlim, passámos para Buenos Aires vigiada por décadas de opressão, por histórias de fugas e de sobrevivências, para as mitologias que constroem ideias de nações.
- Convivemos tão bem com o drama que o dançamos - rematou.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…