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Crónicas de Berlinzâncio: Os meninos da Mamã Europa

Já me tinham avisado, mas eu achei que era exagero ou dor de cotovelo. Ou mesmo teoria da conspiração, que por aqui grassa até de forma organizada. Às vezes de facto reparava, mas pareciam-me tão cópias de cópias de cópias que percebi que por ali não havia manuscrito fiável de forma alguma.
Depois era vê-los: sempre a falar o mesmo Inglês arrotado de consonantes arrastadas, rabecadas entre séries californianas e o que pensam ser inglês de Oxford. Estão sobretudo em Kreuzberg à noite, a relacionar-se com o mundo através do seu iphone. Escondem mal as roupas de marca por cima de um casaco em 2a mão que compram na Bergmannstrasse e que devem achar a maior loucura que fizeram na vida. Enchem as escolas de línguas do Estado de Berlim a aprender Alemão; aulas a que faltam quando a professora começa a apertar-lhes os calos ou a condená-los por chegarem mortalmente atrasados. "Puttana nazista". Enfadam-se mortalmente com as aulas, os colegas da mesma nacionalidade, os de Leste, os do Sul, os do Norte, e estão em Berlim com desejo de "Néue Iórquee" como uma ovelha a balir Almeida Garrett. Tenta-se fazer conversas interessantes: como o Erasmus criou a Europa para a nossa geração (tema de Umberto Eco); os problemas do referendo na Suíça, e eles interrompem, chateados de morte, com a notícia gravosa de que os seus ténis encomendados na internet ainda não chegaram.
Têm as melhores casas, no seu país e aqui, graças ao dinheiro que os paizinhos fazem a papar os seus conterrâneos. Dizem mal do seu país, mas preferem muito mais dizer mal dos Alemães, que os recebem com distância mas cordialidade, até interesse. Têm os melhores convites, o tempo todo para saborear uma cidade imensa, mas estão barbaramente enfastiados e preferem actualizar o seu status no Facebook com carinhas amorosas e expressões com erros de gramática em Inglês.
E nem é de pensar no que farão daqui a dez anos. Casarão com alemães e alemãs, comprarão casas em Prenzlauer Berg, farão da gentrificação uma arma para o seu absoluto fastio, um quarteirão para a sua nulidade, um bairro para a sua superficialidade, uma cidade para a sua estupidez. Bibelots de si mesmos, e da sua infatigável parvoíce. Caganitas da igualdade, poias da livre circulação, diarreias perpétuas sem ultra-levure da fraternidade à vista.
São os meninos do papá e da Mamã Europa. Que lhes dá a chave para o futuro integrado e cheio de possibilidades. Mas a quem cospem na sopa dos actos e da generosidade com a sua impossível, ignorante, inigualável soberba imbecil.

Escrevo este texto como um exorcismo: que nunca meia destas linhas fosse, seja, ou possa sequer vir a ser, no pior pesadelo perdido no Ring em qualquer-coisa-dorf, um auto-retrato.

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