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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2014

Europe by train, I: fronteiras adormecidas

Crónicas de Berlinzâncio: Os meninos da Mamã Europa

Já me tinham avisado, mas eu achei que era exagero ou dor de cotovelo. Ou mesmo teoria da conspiração, que por aqui grassa até de forma organizada. Às vezes de facto reparava, mas pareciam-me tão cópias de cópias de cópias que percebi que por ali não havia manuscrito fiável de forma alguma. Depois era vê-los: sempre a falar o mesmo Inglês arrotado de consonantes arrastadas, rabecadas entre séries californianas e o que pensam ser inglês de Oxford. Estão sobretudo em Kreuzberg à noite, a relacionar-se com o mundo através do seu iphone. Escondem mal as roupas de marca por cima de um casaco em 2a mão que compram na Bergmannstrasse e que devem achar a maior loucura que fizeram na vida. Enchem as escolas de línguas do Estado de Berlim a aprender Alemão; aulas a que faltam quando a professora começa a apertar-lhes os calos ou a condená-los por chegarem mortalmente atrasados. "Puttana nazista". Enfadam-se mortalmente com as aulas, os colegas da mesma nacionalidade, os de Leste, os …

as seen in poetry, I

Começo uma nova série no blogue.
Vivi várias vezes na minha vida poemas inteiros - eles realizavam-se, cumpriam-se, na minha vida. Este foi o último.

Uma vela, mais não. A sua luz ténue
é mais adequada, mais brando te assombras
quando vierem do Amor, quando vierem as Sombras.
Uma vela, mais não. Para não ter hoje à noite
a alcova grande iluminação. Dentro do enleio inteiro
e da sugestão, e com a pouca luz -
assim no enleio hei-de ter visões
para que venham do Amor, para que venham as Sombras.


Konstandinos Kavafis
in Poemas e Prosas
Relógio d´Água, 1994
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães
e Nikos Pratsinis

Crónicas de Berlinzâncio: uma rua como uma infância

Sempre que passo por esta rua, neva. Dentro dos meus olhos, ou nas memórias de memórias que os meus passos andam; ou mesmo dentro do sol. Perdi já a conta à dor no joelho esquerdo que me atrasa quando dobro o cabo entre Turmstrasse e Oldenburger Strasse. Que vejo, do lado direito dos olhos e no passado mais futuro do coração, a rua dos meus primeiros quinze dias. O corpo pára, como num choque de frio, de espanto, como numa defesa. Ou no enorme cansaço antes de renascer. Olho então a Oldenburger Strasse, como se pudesse ver-me a outro eu de mim mesmo, a chegar ao meu encontro. E ele pudesse ver-me, e ficasse orgulhoso do que eu fiz com os seus sonhos. E eu pudesse vê-lo, como se não fosse totalmente nascido, a faltarem-lhe as dores a que devo estes mesmos passos. Ou então o próprio amor. Saberei pela forma como atravessará esta rua, e ao olhar-me para trás, porque passou o semáforo vermelho, fará um pequeno sorriso. Os olhos serão antigos, porque muito tempo os esperei e só tive sede d…

Crónicas de Berlinzâncio: seen at front doors

Dois dos livros na minha mesa de cabeceira, a que prefiro, entre sonhos, escritos e leituras, chamar jangada: Faust's Metropolis: A History of Berlin de Alexandra Richie; e The Guns of August, de Barbara W. Tuchman. Se no primeiro leio que Berlim deve muito da sua força humana, criativa aos estrangeiros que aqui viveram e vivem (dos huguenotes aos judeus, passando pelos "mitarbeiten" e pelos criadores estrangeiros convidados a vir para Berlim Ocidental antes da queda do Muro), no segundo leio a história de raivas acumuladas na Europa durante séculos, que explodiram na I Grande Guerra.  E tudo isto na semana em que, contra as expectativas, os Suíços aprovaram em referendo uma limitação do número de estrangeiros a entrar e a residir no país, a partir de 2017. Logo no dia seguinte, o partido eurocéptico Alternative für Deutschland (AfD), que ficou a 0,1% de entrar no Parlamento Alemão, veio pedir uma lei igual para a Alemanha. Tudo pode ler-se aqui. E de repente sinto-me e…

Crónicas de Berlinzâncio: Friedrichstraße at sun-stream

Os dois somos qualquer coisa um do outro para a qual o Universo ainda não tem palavras.  Este rio de sol num dia de Fevereiro, quando Berlim deveria ser neve e vento e frio, é só a representação do que se passa connosco quando nos encontramos. E tudo é tão para além do corpo, que se te amasse não te amaria mais. Põe o teu passado contra o meu coração. Conheço-o de cor, mais do que o músculo de sombras que me bombeia os dias. E deixa que fique, a rasgar-se de luz, enquanto tu descobres todos os caminhos que a luz ainda não conhece. Minha "cidade de água", de um futuro tão antigo.

Postais enviados por uma personagem, II

[A explicação para esta série pode ser lida aqui.]

«Pedro,
Já escrevestes a cena do jantar em casa da mulher do Castro? Pusestes-me com aquele vestido Doce e Gambana que te amostrei na "Hola"?  O meu homem e eu estamos cá a visitar os primos dele. Isto é frio e feio. O D. disse-me tu gostastes destas coisas da Guerra e escolheu-te este postal. Se fores lá a casa, diz fachavor à Fátinha que faça alheiras, que o D. não fala noutra coisa. Até logo e beijinhos da G.»

Crónicas de Berlinzâncio: se Evitar, não evite

Três evidências presidenciais (ou talvez só três miopias)

É espantoso como cada país tem o hábito cansativo, inútil e esvaziante de andar a discutir os possíveis pró-candidatos presidenciais antes, muito antes, de cada eleição. Poucas coisas são mais improdutivas. Se se discutisse que perfil de país cada candidato pretenderia criar (e traria consigo com a sua candidatura), excelente; se ao invés se discutisse o próprio papel do Presidente da República, cujos poderes fácticos são muito maiores do que reais. Precisamente por isso, quando nas mãos de incompetentes profissionais, de burros institucionais, de débeis simbólicos, o cargo esvazia-se, perde a sua potencialidade. E a saúde simbólica (e identitária, quando coincidem) de um país é por demais afectada. A Presidência é um cargo que implica uma dose dupla de estabilidade e invenção, não pode alimentar-se de uma relativa estaticidade (em sentido duplo) como uma monarquia. E mesmo estas tiveram e têm de se reactualizar precisamente devido ao impacto de boas influências presidenciais. A cris…