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Vendilhões de consciências

Não, não estou a falar da Nigéria, onde escolher com quem dormir é agora um crime.
Estou a falar de Portugal e da recente decisão de aprovar um referendo sobre a Co-adopção por casais do mesmo sexo.
Que país tão triste, que país tão assassino, aquele que faz com que a sua própria Assembleia se demita do seu dever democrático; que lava as mãos em público, como Pilatos, para se livrar de uma decisão de proteger minorias, apenas para não suportar o peso de dever julgar. Que obriga deputados a votarem contra a sua vontade, contra a sua consciência, em nome de mais um voto eleitoral daqui a uns anos; voto que vai assegurar que as empresas públicas continuam a ser chupadas, e bem, pelos mesmos que arruinaram o país com as suas gestões amiguistas.
Vendilhões de consciências.

Estamos a falar - para que seja claro - de um conjunto de centenas de pessoas, muitas delas deputados há mais de uma legislatura, que são moralmente responsáveis por milhares de desempregados; milhares de famintos; milhares de desempregados; milhares de mortos, anónimos ou não, mortos civilmente por idade ou outras factores (convenientemente) indeterminados, fora dos corredores das urgências para não manchar estatísticas. Moralmente responsáveis por milhares de milhares de imigrantes. Porquê? Porque aprovaram, ano após ano, orçamentos de roubo aos seus compatriotas.
Dava a minha mão direita se todos os deputados desta legislatura tivessem lido todas as páginas de todos os orçamentos que aprovaram; dava a minha mão esquerda se se tivessem levantado, nem que fosse em reuniões de bancada, defendendo as bandeiras políticas pelas quais existem como representantes, como seres éticos.
Como manterão ambas, podem agora lavar as suas mãos. Cada linha não lida de um orçamento falará contra eles; cada medida não pesada na sua consciência pelo bem estar dos seus cidadãos ressoará contra eles; cada segundo de distracção nas suas funções máximas de serviço total aos seus semelhantes voltar-se-á contra eles em cada acto público que tomem a partir daqui. Porque se esquecem que cada euro poupado ao Estado - e de que são os primeiros responsáveis - daria de comer à idosa que não tem dinheiro para os medicamentos; daria para ajudar à reforma do avô que levanta a pensão e a reparte inteira pelos seus; manteria gente nas suas casas. Porque se demitem do essencial, não asseguram que o Estado cumpre a sua função, que é assegurar a protecção dos seus cidadãos.
Vendilhões de consciências.

Não, e eu não estou a falar de casais que se amam, que tiveram de passar por tormentos pessoais, familiares e sociais constantes e diários para estarem juntos; não estou a falar de sonhos de construir famílias abertas e inclusivas, famílias lutadas cada dia contra a estupidez, a divisão e o preconceito; famílias que têm na discriminação uma companhia permanente, e a quem o Estado acaba de desproteger mais uma vez. Eu estou a falar de crianças, a quem acontecerão no futuro severas dores - muitas delas causadas também por desleixo dos vigilantes do Estado, sentados nas melhores cadeiras de S. Bento a consultar o Facebook, tão incomodados com gente que os distrai com o seu dever cívico nas galerias. Estou a falar de crianças a quem esta tão nobre e alta atitude dos seus representantes custará anos de internatos, anos de solidão, anos de falta de amor.

Esta decisão diz respeito a uma minoria que deveria ser protegida porque não pode votar - estas crianças; entregar a decisão de uma outra minoria que ainda não existe, as crianças do futuro; e de outra minoria, os casais do mesmo sexo, nas mãos de uma maioria voraz, retrógrada, que passou anos a ir fazer desmanchos a Espanha mas revoltava-se contra o aborto com vogais nasaladas de auto-socidade.
Vendilhões, anões de consciências.

NB: Sabemos bem o que vem depois disto: a revisão da lei do aborto, tal como se passou em Espanha.

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