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Duas notas sobre o caso Hollande-Gayet-Trierweiller

O actual Presidente da República Francesa, François Hollande, encontra-se numa situação efectivamente complicada, porque terá afectivamente mentido. A questão é do foro pessoal, mas faz levantar muitas cabeças. Porquê? Porque Hollande não é casado, e a sua companheira, Valérie Trierweiller, ocupa as funções de Primeira-Dama. E fá-lo sem vínculo, isto é, sem um casamento. Será porque o Presidente vai de mota dormir a casa de outra mulher isso desvincula automaticamente Trierweiller do seu papel de Primeira-Dama? O que me interessa no caso, porquê, com duas notas:

1. Os restos da mobília do casamento
Ao reagir assim perante a revelação do affaire Hollande-Gayet, muits fantasmas civilizacionais estão a ser revelados. Sobretudo que apenas o casamento poderá dar um vínculo estável, ainda para mais quando estão em causa funções políticas. Não pode haver maior disparate de argumentação: se Hollande fosse casado, então o problema de Trierweiller não existiria porque haveria um contrato de casamento? É para isso que serve um casamento, para segurar governos? Mas em que século estamos?
A outra questão tem a ver com a confusão fidelidade de funções = fidelidade afectiva; ao Chefe de Estado como modelo comportamental. Os tempos da Rainha Vitória já terminaram, já não há "pais da nação" santinhos e santorrados. Berrar contra o comportamento de Hollande, que nunca foi casado com a mãe dos seus filhos, e que a deixou por causa da actual senhora que acabou de trair, é ter uma visão inquisitorial sobre a vida dos outros.

2. A Primeira-Dama, figura assassina do feminismo
Querer ter uma Primeira-Dama para que homem e mulher estejam representados no poder, é brincar às famílias com a Barbie-Vitória e o Ken-Alberto. Há diversíssimas histórias de Presidentes que tiveram de escolher como Primeiras-Damas outras figuras que não as suas mulheres, pelos mais diversos motivos; e os Primeiros Cavalheiros que têm surgido fazem questão de fugir à caixa de bonecos em que querem metê-los.
foto: BBC online
As funções de Primeira-Dama são completamente livres, e por definir. E Hollande bem poderia ter feito um acordo com Trierweiller para que ela fosse primeira-dama. Podia ser a sua melhor amiga,  a sua secretária, a tua tia, a sua irmã. O foco está só e apenas porque ambos começaram a sua relação com um caso extraconjugal; e porque a sua situação é "indefinida" em termos "formais". E com isto deixa-se que uma mulher independente, que o foi sempre nas suas atitudes e acções, seja enredada em jogos verdadeiramente limitadores da sua concepção e ideia de mulher.


Se Hollande fosse verdadeiramente ele próprio, e não uma caixa de sapatos entre a esquerda e a sua própria indecisão, agarraria esta situação e diria: "Meus senhores, as concepções de família e de Chefe de Estado mudaram." Não era preciso mais: o debate far-se-ia por si. Mas não: o homem, para grande pena minha e da esquerda europeia, ainda anda a aprender a atacar os sapatos.

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