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Crónicas de Berlinzâncio: ubahn postkarte, I


Entraram os dois, ao mesmo tempo. O mesmo silêncio, os mesmos gestos. Mais que tempo, silêncio e gestos, um outro mesmo: um saco de compras com gatinhos. Fiadas de gatinhos em posições fofinhas, bastante britânicas, de quando cai o sol e se olha para fotografias de família ao chá e se diz "lovely", porque já não há mais nada para dizer. 
Ela sentou-se no banco ao pé da porta. Ele ficou de pé. O chapéu era de adolescente, apesar de ambos estarem claramente no inverno da sua vida - e da vida um do outro. Um olhar, ele carinhoso, ela ausente. Tremia a mão dele que carregava o saco. 
- Do que é que te esqueceste?? - perguntou ela, como se fosse tão habitual como sorrir-lhe, arranjar-lhe a camisa, beijá-lo de manhã.
- De nada.
- Do que é que te esqueceste? - o mesmo tom de voz, precisamente o mesmo.
Ele murmura. Os gatinhos tremem, em filas correctas, a mão dele que os segura ainda mais.
- Não oiço. De que é que te esqueceste?
- Não sei.
Os gatinhos desalinham-se, a mão treme sem parar. Ela olha para o saco, ele olha para os olhos dela e segue-lhes a direcção até à mão dele. Como se olhasse para sua própria mão e a pudessse mandar parar.
Uma paragem em silêncio. Ela olha para ele, como se não olhasse, como se tivesse encontrado um ponto no corpo dele em que pode olhá-lo sem o olhar. Ele prefere a animação do movimento do metro, a surpresa de chegar a Fehrbelliner Platz. 
- Saímos na próxima.
O saco dela, igual ao dele, parece esconder um doce. E a saia dela é mais nova do que qualquer coisa que ela seja ou traga vestido no corpo ou na alma. Entre o boné dele e a saia dela há este silêncio pesado do esquecimento, repetindo-se, como as estações que rolam uma após a outra.
Konstanzer Straße. Ela levanta-se, a saia mostra elegância. Arranjaram-se para ir visitar alguém, talvez os filhos ou os netos. Com delicadeza, ela toca na mão dele e tira-lhe, entre afecto e ajuda, o saco da mão. Estão de costas para mim, de costas para o que temem também. 
Saem. A saia agita-se com o vento do metro, corredores antigos com vento sempre novo.  E os gatinhos seguem nos seus sacos, ordenados. Até ao dia em que ela os arrume, numa tarde de inverno entre fotografias, chá e chuva nas gavetas, querendo esquecer o que ele esquecia.

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