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Crónicas de Berlinzâncio: da sobrevivência dos irmãos Grimm nas viagens de metro contemporâneas

Duas da manhã, o U7 faz a sua cavalgada de ferro, direcção Rathaus Spandau.
Ao meu lado, um tipo loiro, pé grande e clássico e imenso de teutão dá a mão a uma rapariga frágil e loira como se fosse uma flor e ela caísse nela própria. 
A barba dele, somando-se às bochechas vermelhas, fazem-no o melhor amigo de anjos e de princesas perdidas em florestas esmagadas, a que os seus tacões ajudarão a tremer de esperança. 
Eu acabo de sujar as calças do adolescente inquieto à minha frente, com a minha caneta. Só reparo quando ele se levanta; se ele vê alguma coisa fora dos casacos todos, do hoody, e dos auscultadores que parecem conter toda a Berliner Philarmoniker. Não houve desculpas nem perguntas; é uma hora nocturna em que as interacções sociais no ubahn se reduzem a espalhafato ou a nenhum facto. Em plena paragem Blisserstraße, ele sai afinal irritado e inquieto - mas sem dizer palavra ao escriba cansado que desenha imperceptíveis letras no caderno celeste.
O tipo loiro, com barba e pé imenso, é sem dúvida um irmão Grimm. São as suíças e o porte elegante com que se debruça todo nas pernas triunfais para agarrar a donzela fugidia, que mais se devia qualificar como fungizela. Voltou a pegar-lhe na mão. Não sei se é sensual, se ela é fugidia de facto, se ele fez algum erro e isto são mesuras de compensação. Se é tudo culpa da neve, e eles vão tentar derretê-la depressa. Mas de repente, no colar de pérolas debaixo do casaco e dos muitos cachecóis, e da maquilhagem que a torna subitamente mais fria, ela parece-me mais dragão que princesa. Até pela forma baforenta com que pega na mão dele, entre pacto ou pensamento de proposta - como Israel e Palestina em Camp David. A voz dele é bem colocada, é um suábio claro, ela berlinense. A história virá depois, penso enquanto saem comigo e seguem à minha frente, nos mesmos jogos de mesuras, um pouco mais lestos pelos -9º nevosos. Mas parece-me claro que Berlim para eles é uma floresta, onde ambos se encontraram. Ela parte daqui a uns meses. Jogam assim aos afectos físicos e às propostas nocturnas, mas a fungizela tem demasiados séculos de altas torres e espessos bosques no sangue. Vejo-os afastarem-se, cada vez mais longe, nas árvores de braços brancos e raízes frias.
Os dragões e princesas desenham e perdem os seus príncipes na neve.

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