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Como apanhar um Coelho em duas cajadadas só

E na semana em que Passos Coelho poderia dizer (depois de muito tempo poder pensar, apostar e até cantar) que ganharia as próximas eleições, acabou de as perder.
Podem vir Seguros & Inseguros; défices tão abaixo de zero que se tornam superavits; visitas de D. Sebastião, descobrir-se petróleo na Brandoa, e canonizações dos seus padroeiros, que depois disto, nem com a Padeira de Aljubarrota nua só com a pá a limpar as contas do Estado ele chegaria lá. 
E Passos perdeu as eleições em dois gestos simples, sobre os quais não gastou muito tempo a pensar, e que deve ter achado duas soluções de génio, verdadeiramente indirectas, absolutamente inócuas depois de ter domado o monstro deficitário. Na primeira, agiu como aprendiz de mentalista; no segundo, como uma sogra em fúria. O resultado: está a cozer em lume brando.
1. Co-adopção
Mandou os meninos do seu partido arrumar a co-adopção de forma que parecesse correcta, jovem e inócua. Tudo correu mal: foi incorrecta para todos, de legislados a legisladores; retrógrada, porque pôs a juventude do seu partido a pensar como a rainha Vitória, e porque esqueceu sobre quem se legisla e sobre o dever protectivo do Estado, e não sobre a "paneleiragem que quer ter putos" (como um certo líder da Juventude pôs no FB); e foi ofensiva quando procurou ser inócua, porque atacou o que a Direita tanto gosta de chamar como "a base da sociedade", a família. Ao ir contra o princípio do afecto e da protecção, de laços afectivos que defendem crianças em risco, mostrou que princípios não tem, só conveniências eleitorais.
2. Marcelo
A história da moção que fala do candidato perfeito que não deve ser "um catavento" claramente colocava o Professor Marcelo fora da corrida.
Passos Coelho queria fechar-lhe o caminho. Mas acabou por fazer o inverso.
Ao fazê-lo, libertou Marcelo do pior peso morto para as Presidenciais: um partido gasto do poder, sem líder real, pesado e amorfo. Agora pode ser candidato sem qualquer ligação partidária, como deve ser um candidato presidencial. E se o PSD quiser juntar-se, é problema do partido. 
Mais: deixou Marcelo com uma agenda completamente livre para estabelecer um programa presidencial que pode ir fora da área do "arco do poder".
E, sobretudo, provocou o debate, que revelou os poucos e incapazes candidatos que a Direita pode oferecer.
Marcelo acabou de ser eleito, se quiser.
E Passos Coelho acabou de perder.

Nesta semana, Coelho foi apanhado em duas cajadadas só; agora é vê-lo a deixar-se cozer em lume brandíssimo durante o próximo ano.

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