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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2014

Crónicas de Berlinzâncio: da sobrevivência dos irmãos Grimm nas viagens de metro contemporâneas

Duas da manhã, o U7 faz a sua cavalgada de ferro, direcção Rathaus Spandau. Ao meu lado, um tipo loiro, pé grande e clássico e imenso de teutão dá a mão a uma rapariga frágil e loira como se fosse uma flor e ela caísse nela própria.  A barba dele, somando-se às bochechas vermelhas, fazem-no o melhor amigo de anjos e de princesas perdidas em florestas esmagadas, a que os seus tacões ajudarão a tremer de esperança.  Eu acabo de sujar as calças do adolescente inquieto à minha frente, com a minha caneta. Só reparo quando ele se levanta; se ele vê alguma coisa fora dos casacos todos, do hoody, e dos auscultadores que parecem conter toda a Berliner Philarmoniker. Não houve desculpas nem perguntas; é uma hora nocturna em que as interacções sociais no ubahn se reduzem a espalhafato ou a nenhum facto. Em plena paragem Blisserstraße, ele sai afinal irritado e inquieto - mas sem dizer palavra ao escriba cansado que desenha imperceptíveis letras no caderno celeste. O tipo loiro, com barba e pé i…

Como apanhar um Coelho em duas cajadadas só

E na semana em que Passos Coelho poderia dizer (depois de muito tempo poder pensar, apostar e até cantar) que ganharia as próximas eleições, acabou de as perder. Podem vir Seguros & Inseguros; défices tão abaixo de zero que se tornam superavits; visitas de D. Sebastião, descobrir-se petróleo na Brandoa, e canonizações dos seus padroeiros, que depois disto, nem com a Padeira de Aljubarrota nua só com a pá a limpar as contas do Estado ele chegaria lá.  E Passos perdeu as eleições em dois gestos simples, sobre os quais não gastou muito tempo a pensar, e que deve ter achado duas soluções de génio, verdadeiramente indirectas, absolutamente inócuas depois de ter domado o monstro deficitário. Na primeira, agiu como aprendiz de mentalista; no segundo, como uma sogra em fúria. O resultado: está a cozer em lume brando. 1. Co-adopção Mandou os meninos do seu partido arrumar a co-adopção de forma que parecesse correcta, jovem e inócua. Tudo correu mal: foi incorrecta para todos, de legislados…

Crónicas de Berlinzâncio: poemas a caminho, III

[desparque, III]

Postais enviados por uma personagem, I

Vendilhões de consciências

Não, não estou a falar da Nigéria, onde escolher com quem dormir é agora um crime. Estou a falar de Portugal e da recente decisão de aprovar um referendo sobre a Co-adopção por casais do mesmo sexo. Que país tão triste, que país tão assassino, aquele que faz com que a sua própria Assembleia se demita do seu dever democrático; que lava as mãos em público, como Pilatos, para se livrar de uma decisão de proteger minorias, apenas para não suportar o peso de dever julgar. Que obriga deputados a votarem contra a sua vontade, contra a sua consciência, em nome de mais um voto eleitoral daqui a uns anos; voto que vai assegurar que as empresas públicas continuam a ser chupadas, e bem, pelos mesmos que arruinaram o país com as suas gestões amiguistas. Vendilhões de consciências.
Estamos a falar - para que seja claro - de um conjunto de centenas de pessoas, muitas delas deputados há mais de uma legislatura, que são moralmente responsáveis por milhares de desempregados; milhares de famintos; milha…

Duas notas sobre o caso Hollande-Gayet-Trierweiller

O actual Presidente da República Francesa, François Hollande, encontra-se numa situação efectivamente complicada, porque terá afectivamente mentido. A questão é do foro pessoal, mas faz levantar muitas cabeças. Porquê? Porque Hollande não é casado, e a sua companheira, Valérie Trierweiller, ocupa as funções de Primeira-Dama. E fá-lo sem vínculo, isto é, sem um casamento. Será porque o Presidente vai de mota dormir a casa de outra mulher isso desvincula automaticamente Trierweiller do seu papel de Primeira-Dama? O que me interessa no caso, porquê, com duas notas:
1. Os restos da mobília do casamento Ao reagir assim perante a revelação do affaire Hollande-Gayet, muits fantasmas civilizacionais estão a ser revelados. Sobretudo que apenas o casamento poderá dar um vínculo estável, ainda para mais quando estão em causa funções políticas. Não pode haver maior disparate de argumentação: se Hollande fosse casado, então o problema de Trierweiller não existiria porque haveria um contrato de ca…

BOZAR Book Club - Brussels, January 21st 2014.

BOZAR BOOK CLUB - Pedro Sena-Lino Fernando Pessoa, The Book of disquiet (ENG)
In the BOZAR BOOK CLUB book-lovers spend an evening talking about a book under the expert guidance of a well-known moderator. If you can understand the moderator's language, you are welcome to come along, even if you don't speak it.

Fernando Pessoa, Portugal’s national poet, wrote under at least eighty different names. In his prose masterpiece, The Book of Disquiet, he is Bernardo Soares, “assistant bookkeeper in the city of Lisbon,” a lonely man whose fragmentary record of his life, an “autobiography without facts,” is an unforgettably beautiful attempt to answer the questions of a modern Everyman: Why am I here? What am I to do with myself?

Benjamin Moser, the moderator of the english Book Club, is unfotunately unable to come and will be replaced by Pedro Sena-Lino.

Pedro Sena-Lino (1977) is a Portuguese writer, living in Berlin. He published poetry, novels and children books. He’s the fo…

Crónicas de Berlinzâncio: e os poemas voltam do passado, para se acabarem de cumprir

Crónicas de Berlinzâncio: ubahn postkarte, I

Entraram os dois, ao mesmo tempo. O mesmo silêncio, os mesmos gestos. Mais que tempo, silêncio e gestos, um outro mesmo: um saco de compras com gatinhos. Fiadas de gatinhos em posições fofinhas, bastante britânicas, de quando cai o sol e se olha para fotografias de família ao chá e se diz "lovely", porque já não há mais nada para dizer.  Ela sentou-se no banco ao pé da porta. Ele ficou de pé. O chapéu era de adolescente, apesar de ambos estarem claramente no inverno da sua vida - e da vida um do outro. Um olhar, ele carinhoso, ela ausente. Tremia a mão dele que carregava o saco.  - Do que é que te esqueceste?? - perguntou ela, como se fosse tão habitual como sorrir-lhe, arranjar-lhe a camisa, beijá-lo de manhã. - De nada. - Do que é que te esqueceste? - o mesmo tom de voz, precisamente o mesmo. Ele murmura. Os gatinhos tremem, em filas correctas, a mão dele que os segura ainda mais. - Não oiço. De que é que te esqueceste? - Não sei. Os gatinhos desalinham-se, a mã…

Crónicas de Berlinzâncio: poemas a caminho, II

[desparque, II]

Havia uma luz aquática sobre a expectativa do hoje. Vinte anos, ressoava a areia entre os nossos corpos. As pontes entornavam-se todas, mar construído, sobre o que ainda não tinha acabado de ser. Quando formos tudo um para o outro, cessarão a terra e o céu, porque o desejo do incumprido é que sustenta o mundo. A luz moveu-se, nua de futuro. Enquanto os meus dedos lhe sustentarem a fome, não cessará de devastar cada quilómetro de terra que o firmamento cobre e alarga. Não podemos ser tudo um para o outro; no nosso abraço morreria o céu. Vinte anos mais - e a areia, mar desfeito, ocupa o lugar do corpo.

Crónicas de Berlinzâncio: poemas a caminho, I