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Mensagens

A mostrar mensagens de 2014

estou farto

Estou farto de um país que existe contra si mesmo.
Onde fazer é roubar: porque se se faz por coragem, desafio e experiência, está-se a roubar lugar aos outros (e roubam-nos tudo depois); se se faz para roubar, auto-estradas de palmas e jantarinhos monumentais de aclamações depois ("ele ao menos fez; roubar todos fazem", como se se dizia acerca de um certo político).
Estou farto de um país que tem tudo para dar certo, e que é absolutamente inventivo em fazer com que tudo dê errado. Que tem qualificação, recursos, paisagem, história, know how. Um país que inventou o Oceano, e meios de o ligar; um país de desbloqueadores e de ligadores - mas só lá fora, que em Portugal o punhal nas costas e o cortar as vazas é especialidade da casa.
Estou farto de um país que gasta 2/4 em pareceres, 1/4 em luvas, e 1/800 em pagar aos que fazem. Onde a riqueza vem do engodo, e não do trabalho e da coragem. Onde explorar o outro é comenda, e viver disso glória. Onde parecer é todo o currículo qu…

o mar que fica depois do adeus

Crónicas de Berlinzâncio: o poder da mãe dormida

Europe by train: only one character

E eu que nesta viagem procurava tantas personagens, dos ruídos suspeitos a lanchinhos ao folhear secreto de um caderno… Nada. Nem os dois colegas de trabalho que foram, fateados, de Bruxelas a Köln, e que sussurraram durante duas benditas horas de caminho sobre tudo o que havia para saber entre os céus e os abismos sobre a política de facturação da empresa. Nem o senhor de oitenta anos ao telefone e no Whatsupp a falar com os netos e as filhas como se não houvesse amanhã. Nem o facto dos tradicionalmente silenciosos revisores alemães terem passado a vida a dar avisos, devido ao atraso do comboio (e os Alemães ficam doidos com atrasos), que até motivou a suspensão da paragem em Wolfsburg. Não, nada. E o motivo para isso é apenas um: porque só havia uma personagem. Procurei não a ver, mas era demasiado claro, demasiado perto, demasiado forte. Essa personagem era eu. Um homem que saiu da sua cidade, e que passados dois meses lá retornava brevemente, burocraticamente. Um duplo estrangeiro. O …

Concerto para assombro e orquestra

Decorreu, de dia 1 a dia 6 de Dezembro, o "Beethoven Music Chapel" festival, em Flagey, em Bruxelas. Para além da boa surpresa de encontrar Maria João Pires no programa, um outro assombro: Krystof Penderecki, um dos maiores compositores vivos, iria estar presente no que o programa considerava ser uma "pequena traição a Beethoven". Todas fossem assim. Na quinta-feira, dia 4, Penderecki dirigiria de facto duas peças não Beethovianas, e o Concerto para Violino do mestre de Bona. Interpretava o concerto a novíssima Liya Petrova (25 anos), que foi a delicadeza e a singeleza em pessoa. E eu, que nunca tinha ouvisto um compositor dirigir ao vivo, espantei-me pela grandeza da interpretação: Penderecki de facto interpretou Beethoven; percebeu que o seu papel era acompanhar o violino, e não saltar em bicos de pés e chamar a atenção para a orquestra como tantas vezes oiço - e ainda para mais em Beethoven, onde todos os maestros pensam que estão a dirigir a Nona Sinfonia. Reco…

Europe by train: “dley djuzt speak Belgish”

O ICE que me leva de Bruxelas a Berlim é tão extenso que nunca sei bem onde parar na plataforma da Gare du Nord. Bom, desde que sou feliz ex-fumador, é certo que páro sempre longe dos fumadores e respectivos cinzeiros, que na Bélgica se chamam chão. Mas nesta última viagem, manhã de um Novembro indeciso mas frio, vi apenas um gorro, daqueles que avós ou mães cosem saudosamente, as mãos sobre os fios como gostariam que se mantivessem protectivamente sobre a cabeça. E um movimento jingão, os olhos pequenos, um imperceptível brilho comprido oscilando nas orelhas. Um sorriso simpático num rosto pequeno mas largo. “Chinesa ou coreana”, pensei. De bilhete na mão, sublinhadas claramente as horas, carruagem e local, perguntou-me: - Eulopean? Nunca me tinham perguntado isso. Sim, na verdade tinham, e até há poucos dias - mas no contexto completamente diferente: a gelada fila no departamento de estrageiros da Comuna, em Bruxelas (ser europeu ou não dá a alguns um guichet diferente- em breve escreve…

Notas sobre o fim do regime

Agora que passa uma semana sobre "o caso mais grave da democracia portuguesa" ("Público", 24-11-14), partilho algumas notas.
1. Em seis meses, e por esta ordem, Portugal viu revelados os seguintes acontecimentos: - o fim do "protectorado" da Troika (Maio); - o fim do Grupo Espírito Santo, e por arrasto, de um dos maiores bancos nacionais, o BES (Julho); - intervenção estatal indirecta no BES, um tremendo esforço financeiro para o país e para o sistema bancário português (Julho); - uma das mais fracturantes e violentas disputas internas pelo poder dentro de um dos dois maiores partidos, o PS (Maio-Setembro); - o bloqueio, por várias semanas, de um programa informático vital para o funcionamento do sistema de justiça (Setembro-Outubro). - o caso "Tecnoforma" e as suspeitas que recaíram sobre o actual primeiro-ministro (Outubro). - o caso "Golden Visa" e a prisão - inédita - de dois Directores-gerais e de uma Secretária-Geral de um M…

Inquisição e Justiça

Sobre o caso Sócrates não tenho nada a dizer per si, embora tenha uma opinião há muito formada sobre como foi nociva esta figura. Mas sobre o caso quero apenas sublinhar a coragem da justiça em não temer deter um ex-primeiro ministro para o questionar (e agora prendê-lo preventivamente). Tirando o sublinhar dessa independência e coragem, não entendo o ruído. Esqueçamos que se trata de um ex-PM, mas sim do Sr X, que actualmente vive no estrangeiro. Este foi detido no aeroporto quando se somam suspeitas (e provas), quando mudou o vôo várias vezes nesse fim de semana, e a primeira coisa que a polícia faz no dia seguinte é precisamente ir à sua residência buscar papéis. Se fosse o Sr X ninguém estranharia isto. Ninguém está acima da lei, e o poder deve estar ainda menos. Nisso, sim, senhor actual PM: os políticos são de facto todos iguais perante a lei. É isso que estamos a discutir, porque até aqui não parecia assim. Claro que desde a prisão do Marquês de Pombal que não se assistia nada …

Workshops de Escrita Criativa em Bruxelas: 6 de Dezembro 2014