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Israeli blues: multiple identity, I/II


 
Se eu já me cansava de repetir, para quem quisesse ouvir, que “identity is a full-time job”, agora parece que fui obrigado a comer as minhas palavras.
Às pessoas que encontro aqui em Israel, em vários contextos, tenho um pouco mais que explicar quando me perguntam: “De onde és?”. Lá vem “o português, de Lisboa, mas vivo em Berlim”. Listo uma sequência de perguntas que me têm feito depois disto – muitas delas também provenientes de outras viagens recentes:
- Os teus pais imigraram para lá?
- És refugiado por causa da situação no teu país?
- E os portugueses não vão todos para França?
- Ah, não tinhas trabalho em Portugal?
Quando respondo que não foi por nada disto, a pergunta ainda ecoa maior. E depois vem o seguinte:
- E fazes o quê?
Segue-se o escritor e professor. Mas isso não sou eu, é apenas o que faço. Não vale a pena: toda a gente acha que fui despedido porque tive uma depressão, ou vice-versa, e vivo de um cheque securitário social.
Porém, foi aqui, numa boa conversa numa noite de Verão em Dezembro, num bar em pleno Florentine, enquanto acendiam a Menorah em pleno quinto dia da Hannukah, que encontrei a definição para o que faço – porque ressoa também o destino de milhares de compatriotas expatriados em muito adversas condições:
- Sou operário da desconstrução simbólica.

De facto: tendo nascido num país, vivendo noutro; falando mais horas a fio outras línguas que não a minha,  e que é agora um instrumento de trabalho e de lembranças; não me podendo expressar nessa mesma língua nas situações extremas; e visitando um terceiro país que não meu de origem ou o que agora é a minha casa viajante, pergunto-me o que é a identidade. Não são as raízes, não é a língua, nem sequer a história pessoal. A identidade é a criação do presente, e o modo como persiste e se prolonga. E é por isso que não há melhor definição para este processo e luta do que estes versos de Natércia Freire que nunca mais me abandonam:
«Nada pode valer esse Presente
Nesse Egipto de fonte aonde existo»

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