Avançar para o conteúdo principal

Israeli blues, 1: Numa noite há 22 anos, um rapaz atacou Deus



            
            22 anos desde que aqui vim pela primeira vez. Jafa, Igreja de S. Pedro. O mar ao fundo, e a placa que jura que, para além de S. Pedro, também Napoleão aqui dormiu.
            22 anos e outro sono, o meu: um adolescente que ganhara uma viagem à Terra Santa com a Paróquia, viajando sem Pais e com um ultimato atirado ao silêncio devastador (depois criativo) de Deus, na véspera da viagem:
            - Vou à Tua terra. É a Tua última oportunidade, Deus. Ou me mostras que existes, ou eu nunca mais vou querer saber de Ti.
            Aqui sentado, 22 anos depois, tendo vivido tantas vidas, tendo sido tantas vezes eu e o seu oposto, peço este adolescente de volta. Esta sede de perguntar tudo, de viver cada coisa como um combate total. Esta urgência de sede, de devastar respostas, de as lutar com o meu próprio sangue; de fazer o meu caminho com todas as angústias do céu e da terra reunidas em mim. Cada homem cria a terra, recria Deus, revive o cosmos em toda a sua forma e potência. Ser-me outra vez – não porque eu não queira ser mais eu, mas porque eu quero ser cada vez mais eu.

            Aqui São Pedro foi visitado por um anjo, que o alertou que seria preso e que teria de fugir. Começou a sua diáspora, que o acabaria por levar a Roma. Aqui Napoleão dormiu entre batalhas e Egiptos múltiplos. E aqui eu regresso, a este espelho de sede. A eternidade, a eternidade: a sede da Criação, a criação da sede.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…