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Crónicas de Berlinzâncio: Waving floor



Os meus amigos alemães e berlinenses, de vez em quando queixam-se: «Muita gente acha que Berlim não é mais do que um enorme dancing floor». De facto há gente que parece estar aqui para uma festa permanente; sempre de garrafa em punho, a qualquer hora do dia, com olheiras de três dias. Então se ando perto de Ostbahnhof, é vê-los sair de um fim de semana non-stop na maior discoteca da Europa, o Berghain, uma antiga estação eléctrica, do qual tenho narrativas completamente míticas (não na primeira pessoa).
Mas de facto, passado um ano, o que compreendo é que se Berlim é uma festa para algumas pessoas, para quem fica é outra coisa. Um enorme cais, onde se está permanentemente a despedir-se de alguém, a acenar adeus a alguém que parte. Claro que choro sempre, para divertimento e desconforto de quem parte, mas tenho sempre resposta pronta:
- Seiscentos anos de despedidas nos meus genes. Os portugueses não fizeram outra coisa desde o século XV.
O que, além de colocar a minha defesa no plano do incontornável, do destino nacional mais forte do que eu, também traz consigo uma educativa troca de conhecimento.
Só nos últimos três meses me despedi quatro vezes, e muitas delas para um até breve impossível, que sabíamos impossível. Agora levo mais longe a minha resposta. É que na despedida me dizem:
- Vemo-nos durante o próximo ano.
- Eu hei-de vir cá para o ano, de certeza.
- O mundo é um lugar pequeno.
Eu digo logo:
- Não me venhas com tretas. O mais provável é nunca mais nos vermos. Dá cá um abraço e deixa-me dizer tudo que acho sobre ti.
E portanto ainda torno as despedidas piores, porque se passa uma sequência de memórias e louvores.  A verdade é que fico mais reconfortado, porque disse a toda a gente o que delas me marcou, e tudo fica claro. Com a esperança que tenho de ser esta a minha última reencarnação, espero equilibrar karmas antigos.
Portanto, nesta cidade-plataforma, nesta espécie de barco só cais que é Berlim, onde pessoas vêm de todos os lados e partem para todos os lados do Universo, eu percebi que o pior que o dancing floor é de facto o waving floor: esta solidez líquida, este terreno viajante, onde a língua mais natural é adeus.

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