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Garten Postkarten, II

1. Futebol e garrafas
Já passou por mim em várias partes da cidade. Até à noite em Oranienstrasse, sempre com o seu carrinho onde recolhe as garrafas que outros deixaram nas ruas, e a permanente frase: «Ele joga futebol, ele joga futebol". Não percebo de onde é: se um turco de 2a ou 3a geração (uma das forças silenciosas que reconstruiu a Alemanha no pós-guerra), se um emigrado de outra próxima Euroásia. O certo é que vive do presente. Sabe que as dezenas de cêntimos que recebe no supermercado por cada garrafa devolvida lhe darão o que não tem. Divertimento e rendimento, como muitos mais novos ou mais velhos que se dedicam a este desporto que lhes faz bem às pernas, à poupança e sobretudo aos dias vazios.
Da última vez, sentou-se ao pé de mim quando fumava um cigarro num dos primeiros dias frios do fim de Setembro. Nem longe nem perto. «Fussball, fussball», a apontar para alguém supostamente à frente.
- Quem ganhou? - perguntei-lhe.
Mostrou-me os dentes todos num sorriso irreal e esmaltado. E levantou-se.
Ele não recolhe garrafas, percebi então. Ele marca golos em cada garrafa que recolhe.
2. O auto-ciclista
Anda às voltas no Parque. Eu às vezes faço isso, quando não me apetece fazer os meus caminhos de bicicleta ao ouvir o resmungo úrsico dos berlinenses que vão de capacete e bicicleta último modelo pelas vias, sempre irritados quando alguém não anda à sua velocidade de cruzeiro de duas rodas.
Ele anda às voltas no Parque e tem um olhar esgazeado, 200 gramas de gozo pela tranquilidade e outros 200 (talvez 250 mesmo) de tentar fugir do seu mundo mental. Visivelmente está desempregado, visivelmente está sozinho. Só se sente feliz numa bicicleta e no Parque, onde tem gosto mais de ver as pessoas que as paisagens. O casaco de fato de treino em cima de uma camisa denota um hipster em modo de conversão lenta. Não sei porque é que circula com aquele olhar entusiasmado mas frio. Talvez mesmo por isso: porque precisa de circular para que o sangue não lhe gele.

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