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E agora, Germania?

Alguns dos leitores do blogue tiveram a simpatia de me escrever com uma espécie de pedido: «Não pode falar das eleições alemãs?». Quer dizer, foi menos simpático e directo do que isto, mas gostei do pedido.
Tive ocasião de escrever recentemente um artigo para o "Sol" (publicado a 20 de Setembro) sobre o cenário da campanha. Mas agora seguem apenas umas impressões sobre o que aconteceu, respondendo também a algumas perguntas que os meus amigos e família em Portugal me foram fazendo nestes dias.
- Mas porque é que reelegeram Merkel?
Porque é um símbolo prático e um símbolo pragmático. São duas coisas distintas. Prático: porque é uma filha de um Pastor da antiga DDR (RDA), uma cientista séria, que viveu muitos anos com um sentido de resistência séria mas suave. Por outro lado, porque Merkel tem uma estatura calma no meio das discussões políticas. Basta vê-la no debate contra o seu rival do SPD, Peer Steinbrück, ou em tantas vezes no Parlamento. Imperturbável, trabalhadora. Dizia-me o meu amigo Jamie: «Viste a cara de cansaço com que ela estava no debate?». Concluímos ambos que isso é mesmo ela, e o recado este: «Estou cansadíssima de trabalhar para vocês, mas continuarei a fazê-lo com o maior prazer».
Pragmático: uma mulher que representa o pós-guerra, a divisão das Alemanhas e a sua reunificação, num espírito de esforço e de persistência. Não é o símbolo triunfante que alguns Alemães gostariam, e de que alguns Europeus também pelo seu oposto: um símbolo que dissesse: «Chega de sermos o underdog por causa da II Guerra. Agora temos poder, não temos mais de andar a pedir desculpa por existirmos». Não, isso não é Merkel. Na campanha do seu partido, a frequente sobreposição da palavra «Alemanha» por cima da sua fotografia dizia isto mesmo: esta é a nova Germania: trabalhadora, paciente, calma, com uma visão. Trabalhamos e fazemos, antes de impor seja o que for.
Eu estou no extremo político oposto desta senhora. Não é esta a política que é necessária para a Alemanha, e também para a Europa. Mas é a política possível para a Europa que pode sair da Alemanha neste momento - e o voto massivo que diz "confiamos em ti, faz tudo sozinha, não queremos anti-europeístas nem liberais" mostra como o eleitorado alemão, apesar de rezingar contra o Euro e a Europa do Sul, percebe que é o que se pode agora fazer. Admiro nela o conseguir ter comido o eleitorado do SPD, no primeiro mandato, e agora o dos liberais. Há quem ache que Merkel é um eucalipto, que come tudo à sua volta. Não é isso: ela tem a capacidade de estar à esquerda do seu partido, e cumprir o programa com uma visão própria.
- E o que vai acontecer agora?
Na Alemanha só houve uma maioria absoluta no pós-guerra: a de Adenauer no segundo mandato, em 1957 (na Alemanha Ocidental, ou RFA: não nos esqueçamos que havia duas e que a RDA não desapareceu de um dia para o outro dissolvida como uma aspirina em água quente). Merkel está a poucos lugares da maioria absoluta, e isso vale com símbolo. Claro que poderia tentar o intentado, que seria governar com acordos. Mas aqui não se faz assim: a maioria permite um programa de facto, que é discutido e posto em prática no pós-eleições. É a segunda parte da campanha, a segunda parte do voto. É assim que funciona aqui. E para além do mais, Merkel tem um programa bem claro para pôr em acção agora: contas claras na Europa, algumas medidas de união económica depois disso. A União Europeia, daqui a 4 anos, será um local bem diferente, com um sistema económico resistente aos ataques que geraram boa parte da crise do Euro. E aí veremos algumas medidas inesperadas, um pouco mais socialmente informadas. Ou seja: a Chanceler agora vai mostrar as suas true colors. E, boa notícia, conta com François Hollande.
Seguem-se agora longas discussões com o SPD, com quem já há oficialmente um acordo. Sabe-se que o salário mínimo será uma imposição do SPD (8,5 € por hora). Mas Merkel poderá agora encostar-se ao SPD contra o seu próprio partido, de uma forma suave.
Para os Verdes, a situação complica-se. Ficarão sozinhos na oposição com o "Die Linke". Se lhes correr bem, poderão calmamente estender e alastrar a sua margem de apoio durante estes 4 anos.
- Como foi viver aí as eleições?
Foi a primeira vez que vivo num país em que não posso votar. Em que para perceber o que é dito na campanha me esperam frequentes passeios pelas páginas do Dicionário, chateando os amigos com mais e mais questões. Ou seja: estas eleições afectavam-me duplamente, como europeu e como cidadão de Berlim. Mas não poder votar fez-me também ver tudo isto com outros olhos, de estrangeiro que tem aqui a sua casa.
E o que me chocou mais foi como, "no país das ideias", quase não as houve na campanha. Como o personalismo sem mensagem atacou e colonizou a campanha (as caras dos candidatos a deputados, com sorrisinhos, e pouco mais).
Ou seja: como a campanha tentou alhear os eleitores da política; e como eu, alienum, estrangeiro me apercebi de como ainda se pode mudar muita coisa com um simples voto. Que as eleições - e não falo particularmente destas - podem contrapor ou até cessar o poder de tantas forças ocultas e não eleitas que querem diminuir a voz dos cidadãos.

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