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uma leitura de despaís

http://www.flickr.com/photos/uncountry/9806084745/
Publico um excerto de uma crónica do escritor brasileiro Flávio Wolf de Aguiar, em que faz uma leitura de despaís. A totalidade da crónica pode ser lida aqui.

«(...) Dediquei-me à leitura do livro Despaís – como suicidar um país, de Pedro Sena-Lino (Porto: Porto-Editora, 2013), um “romance-provocação”, de acordo com o próprio autor, curiosa e bem escrita sátira política sobre a situação de Portugal. Ambientado no futuro, o livro lembra aquelas aventuras de ficção científica dos tempos da Guerra Fria, em que uma hecatombe devasta a humanidade e grupos de sobreviventes têm de abrir caminho a duras penas num ambiente destruído e tomado por inimigos todo-poderosos. Só que aqui os alienígenas são mercenários e outras tropas enviadas por países e corporações internacionais que “compraram” o território português como quem se apossa de uma massa falida – falida graças a alguns de seus próprios governantes que tramaram a quebra do país para se apossarem eles mesmos de vantagens nas negociações de venda que se seguiriam à quebradeira. A esquerda, embalada pela ideia de que se o país deixasse de existir a dívida externa, por falta de devedor, também desapareceria, adere à tese de terminar o país através de um referendo – para depois refundá-lo, como se isto fosse possível. Ao final, tudo o que resta de Portugal são umas quantas embarcações de gente audaz mas derrotada e à deriva no oceano. Uma imagem provocativamente real que põe à mostra o ressentimento subterrâneo que hoje tomou conta das veias abertas daquele país (...).»

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O regresso regressa

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