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Jardins para o Fim dos Tempos: a 4a de Beethoven

Um mito e uma obsessão. Primeiro o mito: de que as sinfonias pares de Beethoven são inferiores às ímpares. A verdade é que as sinfonias ímpares têm de facto um poder da vontade extremamente forte: a 1ª, estou aqui, a Sinfonia é a minha língua, vou deixar a minha marca; a 3ª, a Heroica, um testemunho político e do poder da vontade; a 5ª, a marca da surpresa do destino para a eternidade da Humanidade desde que foi pela primeira vez interpretada; a 7ª, a vitória; a 9ª, a Humanidade inteira.

No meu trabalho como professor de escrita, sobretudo de autobiografia, falo bastante dos corredores, dessa espécie de ponte perdida que nos liga a pessoas, eventos e realidades, e que muitas vezes esquecemos. Quero dizer: só me lembro que em 1992 fui estudar Chinês, mas esqueço-me que conheci o Han, num café em 15 minutos em Amsterdam, e que conversar com ele me deu vontade de aprender Chinês. Se não tivesse conhecido essa pessoa, teria aprendido Chinês?
Pois bem: serve a metáfora para falar das sinfonias pares de Beethoven: é que antes de mais devem ser consideradas como corredores para as grandes sinfonias. A 2a, uma explosão de energia, prepara a 3a; como a 4a prepara a 5a. Porém, são também, talvez, mais secretas, o seu programa é mais interior, mais pessoal: como depois de falar para o mundo inteiro, Beethoven tivesse de trabalhar a sua memória e a sua imaginação para si mesmo. Sinfonias para si mesmo.
Assim é a 4a, que é um dos maiores tesouros escondidos da história da Música. Escondido, relativamente: está lá, como um quadro num dos maiores museus do mundo, mas para onde poucos reparam.
O primeiro andamento começa quase como um ensaio, um som de cordas que se vai prolongando, e que depois se reúne até à explosão. O crescendo que vai do silêncio para a rebentação é extensíssimo; o contraste, maior. A música navega entre estes dois extremos, que se tocam e perguntam como numa perseguição entre dois seres que algo indefinível torna maiores que eles mesmos. O final é um crescendo que parece alimentar-se de todos os contrastes para se tornar vitorioso, ou melhor, surpreendente. Há uma força erótica e cósmica neste jogo, como quem sabe que criou uma galáxia.
O segundo andamento tem a ver com a obsessão de que falei no início deste texto. O maestro Carlos Kleiber era conhecido por dirigir pouco, e sobretudo, por estudar profundamente a partitura e os eventos da composição das obras (a pré-partitura). E leu que Beethoven tinha à época uma amante chamada "Theres". Pois o início deste andamento, dois sons que se repetem como sílabas, para Kleiber era Beethoven a chamar por Theres dentro da pauta. Nunca mais ouvi este andamento, com o seu segundo tema nostálgico, sonhador, uma noite entornada de estrelas num campo eterno, sem pensar em Theres, sem viver o mesmo chamamento. Aqui toda a orquestra parece gravitar à volta deste apelo contínuo, como se todo o tempo fosse apenas a duração de uma espera.
O terceiro andamento é um dos mais intrépidos e rápidos de Beethoven. Uma energia imparável, a natureza de um cometa. Mas também a pergunta, uma ligeira pausa, que faz a marcha insustentável da orquestra caminhar mais longe.
No final, a explosão inicial retoma-se, agora reunida. As cordas, de novo, fervilhando entre um segundo tema campestre pelos sopros. É como se o movimento de um rio tivesse sido aprofundado, mergulhado, medido apenas com a suprema intensidade da humanidade. O final acorda qualquer um do sono dos seus dias para a vida inteira do momento.

 Há boas interpretações da 4a Sinfonia dentro de várias integrais: Gardiner (Archiv) e Zinman (Arthaus), com instrumentos originais (o primeiro) ou estudos das primeiras edições (o segundo) criaram versões particularmente rítmicas e velocistas. Recomendo não como primeira audição, mas para depois, quando já se conhece a Sinfonia e se quer a surpresa de a ouvir quase como a primeira vez.
Duas boas surpresas são as interpretações de Skrowaczewski e a de Toscanini (claro): aqui o jogo de contrastes é sólido e revigorante. Toscanini torna-se imbatível no último andamento, em que a orquestra parece um relógio suíço a transformar-se em furacão.
Duas interpretações imensas, excessivas na sua escolha de tempo, nas suas grandes pausas, nos seus detalhes, na experiência laboratorial sonora: a de Abendroth (Tahra), e sobretudo a de Furtwängler em Viena (EMI ou Naxos). O primeiro andamento em Furtwängler é um momento de respiração - como se a música nos pudesse dar consciência de que não sabemos respirar.
Porém: a palma vai para Carlos Kleiber. Só conhecemos gravações da 4a, da 5a, da 6a e da 7a (duas). Mas a da 4a é de uma precisão de cada momento, de um som arrebatador, de uma intensidade que vem de uma unidade que se constrói. A 4a de Beethoven por Kleiber não é apenas música: é um processo.  
Ao vivo, aqui. E a obsessão do nome Theres (é um documentário excelente sobre Carlos Kleiber, mas a parte que referi aparece apenas a partir do minuto 43:50, aqui).

A 4a de Beethoven é, por estes dias, a minha banda sonora. Sobretudo a versão por Kleiber, um dos primeiros discos que comprei, e que não tenho comigo, em nenhuma forma. Oiço-o no youtube, ou vou ao paraíso terreal em Berlim, a Dussmann, ouvi-la. Em tudo e sempre, a noção de que esta música veio ter comigo, desta vez num encontro total, para que eu suba as suas escadas para uma luz nova e maior.

PS: Acabando de escrever e postar este texto, reparo que escrevi outro, na "minha integral das Sinfonias de Beethoven", neste blogue, em Dezembro de 2008 (como a sede sobe em 5 anos...). Deixo ambos os textos - até porque este último cumpre e alarga o que dizia no anterior. A magia da vida: este reencontro e aprofundamento permanente dos sentiers battus, como dizia Poulenc, dos lugares conhecidos. E, sobretudo, porque a homenagem à 4a de Beethoven, e a Carlos Kleiber, não serão nunca bastantes.

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