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Crónicas de Bizâncio: Garten Postkarte, I

Nos meus quase diários passeios pelos parques da cidade, deparo-me com algumas figuras verdadeiramente interessantes. Algumas delas dariam só um romance. Como, com a idade, o meu lado polígrafo vai-se diminuindo ("a maturidade concentra", dizia um excelente professor que tive), aqui seguirão algumas dessas figuras, fotografias com letras.

1. o leitor descalço
É vê-lo no Lietzensee a meio da tarde, a cara ainda de bebé milupa que uns óculos fortes e olhar distabundo perturbam. Anda com um livro pequeno nas mãos, lê com o corpo todo. Da primeira vez, assombrei-me da leitura peripatética, leitor andante no parque como na montanha da prosa. Infelizmente nunca consegui perceber o que lê. Mas há dias percebi que não é apenas esta leitura em movimento que é curiosa: é que ele caminha descalço. Não sei se treina para sem abrigo, ou se de facto o único abrigo que tem é o livro. Lerá o Walden, e precisará de sentir a terra para o perceber melhor? Hegel, e com os pés as ideias serão mais puras? 

2. à espera da espera
Sempre às 5 horas, ele está num banco num dos cantos do jardim. Sempre. E quando passo, tira os olhos do livro (mais raramente do telemóvel) e olha-me. Parece imprecisamente esperar alguém. Alguém mais abstracto do que concreto. A bicicleta sempre bem sentada ao seu lado, elegante e quieta; os caracóis loiros que teimam em cair em cima do nariz de quadro renascentista, a camisa aos quadrados que destoa com a mais aérea atitude . Tem um trabalho chato das 8 às 4, isso é certo, bem ali perto, e a ida para o parque é o corte na rotina. Viverá com uma mãe velha e castradora? Partilha a casa com mitbewohneren chatos? Esperará no parque, para além da tranquilidade e da pausa, alguém que lhe perturbe o dia aos quadrados?

3. um caso, um caso
Ninguém me tira da cabeça que elas têm um caso. As duas a rasar os cinquenta, o corpo bem tonificado, a elegância discreta. Uma delas tem uma colecção de colares verdadeiramente magnífica, deste a construção complexa à bijouteria mais refinada, passando pelo aparato multi-culti. A outra prefere as camisas justas, embora os sapatos tenham sempre alguma coisa de complexo. Sentam-se frente ao lago, uma sempre com a cabeça em cima das pernas da outra, numa espécie de suave distância próxima. Saem de mãos dadas e são a Primavera inteira. Mas já por duas vezes as vi separarem-se frente ao parque e irem em direcções opostas. Um caso, posso jurar, um caso. Em que têm toda a felicidade da vida como num fim de tarde no parque.

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