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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2013

notas longínquas sobre as autárquicas

Num país em que os candidatos independentes passam de gerir 4 municípios para 11; em que diversas listas de independentes terminam com décadas de poder de um partido (caso da Madeira); e em que esses mesmos grupos de independentes foram responsáveis por grandes mudanças de votos em municípios (Gaia ou Sintra são os maiores exemplos): este é um país onde as pessoas se revoltam contra os ditames dos partidos para gerir os seus destinos mais directos e próximos, em que as pessoas votam contra os partidos. Total nacional dos independentes: 7 a 8%. Este número de votos, transposto para a Assembleia da República, significaria um novo partido que seria árbitro nacional. Não é transponível, claro está. Mas é um alerta: se daqui a 4 anos se assistir ao dobro, assistimos ao fim do sistema político da III República com a implosão dupla dos partidos, por dentro e por fora, a partir do poder local. Foi assim que se fez 1383.
Num país em que o partido que mais votos e municípios ganha é o PCP (na C…

Jardins para o Fim dos Tempos: a 4a de Beethoven

Um mito e uma obsessão. Primeiro o mito: de que as sinfonias pares de Beethoven são inferiores às ímpares. A verdade é que as sinfonias ímpares têm de facto um poder da vontade extremamente forte: a 1ª, estou aqui, a Sinfonia é a minha língua, vou deixar a minha marca; a 3ª, a Heroica, um testemunho político e do poder da vontade; a 5ª, a marca da surpresa do destino para a eternidade da Humanidade desde que foi pela primeira vez interpretada; a 7ª, a vitória; a 9ª, a Humanidade inteira.
No meu trabalho como professor de escrita, sobretudo de autobiografia, falo bastante dos corredores, dessa espécie de ponte perdida que nos liga a pessoas, eventos e realidades, e que muitas vezes esquecemos. Quero dizer: só me lembro que em 1992 fui estudar Chinês, mas esqueço-me que conheci o Han, num café em 15 minutos em Amsterdam, e que conversar com ele me deu vontade de aprender Chinês. Se não tivesse conhecido essa pessoa, teria aprendido Chinês? Pois bem: serve a metáfora para falar das sinfon…

Problemas técnicos

Aos leitores das Crónicas,
Tenho postado menos no blogue por um único motivo: não consigo. O Blogger mudou o seu design e funcionamento há um tempo, mas pelos vistos a acumulação de problemas técnicos é infernal. Eu pura e simplesmente não consigo sequer postar. Estou neste momento a fazê-lo de um outro computador que usa outro browser. Já escrevi ao apoio técnico, já vi tudo e mais alguma coisa. Se alguém souber a saída para o problema técnico bX-mal255, agradeço. É por estes problemas que alguns amigos meus se mudaram para o wordpress. Talvez tenha de fazer o mesmo. Mas: explicação dada. Atrasos na publicação são apenas problemas técnicos. Obrigado, Pedro

uma leitura de despaís

Publico um excerto de uma crónica do escritor brasileiro Flávio Wolf de Aguiar, em que faz uma leitura de despaís. A totalidade da crónica pode ser lida aqui.
«(...) Dediquei-me à leitura do livro Despaís – como suicidar um país, de Pedro Sena-Lino (Porto: Porto-Editora, 2013), um “romance-provocação”, de acordo com o próprio autor, curiosa e bem escrita sátira política sobre a situação de Portugal. Ambientado no futuro, o livro lembra aquelas aventuras de ficção científica dos tempos da Guerra Fria, em que uma hecatombe devasta a humanidade e grupos de sobreviventes têm de abrir caminho a duras penas num ambiente destruído e tomado por inimigos todo-poderosos. Só que aqui os alienígenas são mercenários e outras tropas enviadas por países e corporações internacionais que “compraram” o território português como quem se apossa de uma massa falida – falida graças a alguns de seus próprios governantes que tramaram a quebra do país para se apossarem eles mesmos de vantagens nas…

Crónicas de Berlinzâncio: mirrorwing city

Éramos quatro na noite entornada no Spree em Jannowitzbrücke: uma belga, uma finlandesa, um norueguês e um português. Poemas, processos, pontes. E de repente as mulheres começam a falar de amor. Os homens recuam, como sempre. Mas depois juntámo-nos, nessa espécie de calor que se cria quando se fala das origens do coração.  O rio corria desde muito antes, e parecia juntar-nos para além da chuva que vinha de dentro, tímida e num inglês apressado, entre cigarros e Berliner Pilsner tomada entre tragos surpreendidos. A mesma história, dividida e personalizada por quatro. Um de nós recuava mais, interpunha os resultados em que o amor e a vida se unem; os outros três continuavam felizes seguindo a teoria da belga, em que amor e vida se separam (uma teoria bem mais interessante que isto, mas os direitos de autor, que ninguém respeita para além dos autores, impedem-me de o contar). E de repente, naquela verdadeira nave espacial que mergulhava no mais insondável mistério que Berlim tem para ofe…

Crónicas de Bizâncio: Garten Postkarte, I

Nos meus quase diários passeios pelos parques da cidade, deparo-me com algumas figuras verdadeiramente interessantes. Algumas delas dariam só um romance. Como, com a idade, o meu lado polígrafo vai-se diminuindo ("a maturidade concentra", dizia um excelente professor que tive), aqui seguirão algumas dessas figuras, fotografias com letras.
1. o leitor descalço É vê-lo no Lietzensee a meio da tarde, a cara ainda de bebé milupa que uns óculos fortes e olhar distabundo perturbam. Anda com um livro pequeno nas mãos, lê com o corpo todo. Da primeira vez, assombrei-me da leitura peripatética, leitor andante no parque como na montanha da prosa. Infelizmente nunca consegui perceber o que lê. Mas há dias percebi que não é apenas esta leitura em movimento que é curiosa: é que ele caminha descalço. Não sei se treina para sem abrigo, ou se de facto o único abrigo que tem é o livro. Lerá o Walden, e precisará de sentir a terra para o perceber melhor? Hegel, e com os pés as ideias serão ma…