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no lançamento de despaís

Publico o texto que li na apresentação de despaís, no dia 12 de Julho de 2013, no Grémio Literário de Lisboa.

Há uma frase de Heródoto que me persegue desde os meus 9 anos, quando o meu Pai me ofereceu a minha primeira História Universal – uns volumes castanhos a letra de oiro que foram como a minha primeira namorada: devorei-a até saber partes inteiras de cor. A frase de Heródoto deu-me as primeiras insónias, assombrou-me as pequenas estruturas do meu pensamento de então, e ficou como uma espécie de monstro edifício fantasma: «O Homem tem medo do Tempo; mas o Tempo tem medo das Pirâmides».
       Ainda hoje, ao impacto dessa frase devo muito do que pretendo fazer com o objecto literário romance. E é sobre isso que gostaria de falar agora, mais do que fazer algo que me parece redundante, redutor e retroverso, que seria falar directamente sobre o livro ou sobre as circunstâncias da sua escrita. Estaria, entre outras limitações, a impor-vos uma leitura prévia, a reduzir a vossa liberdade de criar sentido, que é das poucas experiências de liberdade que o nosso contemporâneo mundo ainda nos permite fazer.
       Mas antes, porém, gostaria de desenhar uma espécie de planta arquitectónica do livro. Antes de mais: é um cenário, construído a partir dos princípios da história virtual aplicada ao romance, ou seja, mantendo a situação actual com a alteração de uma variável: e se um grupo de extrema-direita propusesse a realização de um referendo sobre o fim do país? Em Portugal, a crise fechou-nos no presente limitado, no presente de sobrevivência: tentei combater essa visão, atirando o momento para o futuro, imaginar um pior para ver se é possível. É um exercício-alerta.
       Por outro lado, procurei dar voz àqueles que estão a perdê-la no turbilhão; agora ouvimos mais as agências de rating, os ministros das finanças, do que as vozes dos cidadãos. A Literatura tem, a meu ver, esta missão de recentrar sobre o indivíduo, o essencial. E tentei fazê-lo, pondo o livro nas mãos de vozes de vários narradores: dois jornalistas, um gestor, uma criança de seis anos (o Afonso) que sofre a crise na perda da escola, dos brinquedos, até da irmã, e de uma mulher velha, que perdeu os filhos com a emigração, e que num processo de demência perde a única coisa que lhe dava identidade e chão: o país.
       Devo sublinhar que escolhi Portugal, e não um país outro ou até um país apenas sugerido nas suas semelhanças com Portugal, porque é o mais antigo país da Europa, com as suas fronteiras definidas desde o início do século XIII, com a mesma língua, entre outros factores. Simular o desaparecimento do mais antigo país da Europa num romance é também questionar a possibilidade de muitas estruturas do Ocidente terminarem. O Ocidente não é já o centro do mundo, não o será durante muitas décidas. Quis por isso equacionar se as suas estruturas, que considerámos imutáveis, possam desaparecer rapidamente.
Como um artesão que define o que pretende fazer com a madeira que trabalhará, com aquilo que vê como objectivo nesse material ainda informe, milenar, trabalhado, recriado por milhares de criadores antes de si. Houve já milhares de romances antes deste, haverá milhares de milhares mais. Mas aquilo que é a relação entre este objecto e eu, aquilo que este criador concreto e as suas circunstâncias podem fazer com o objecto literário romance no início do século XXI em Portugal, é algo único. E é sobre isso que gostaria de me deter.
       Não me interessa, não me interessou nunca, a Literatura como jogo de sociedade, como mercado de capitais, como lavatório de egos ou ringue de compensações e falhas identitárias. Interessa-me a Literatura como espelho negro, como processo, como provocação. Acredito no progresso interior da Humanidade e que cada um de nós deve buscar esse processo nas raízes da sua própria vida e ao longo da sua história.
       Por outro lado, não consigo conceber o romance apenas como ‘contar uma história’: não só não o posso reduzir a isso (quando há outros meios também tão eficazes para tal) como o próprio objecto romance resiste a e combate esta simplificação. Explico-me: não há narrativa sem desconstrução. Uma história é já um continuum de decisões, de opções, uma forma de refundar a realidade e de estabelecer uma nova relação entre o sujeito e a realidade.
       O que quero então fazer com o objecto literário romance? Testar o significado de uma série de conceitos e estruturas – outro tipo de objectos – que consideramos bases civilizacionais, e portanto inquestionáveis, sem já referir antiquíssimas e portanto essenciais, inalienáveis. Em 333, o que é um livro e as redes que estabelece, e como essas redes e esse poder simbólico se mantém para além do desaparecimento do próprio livro. Em despaís, a ideia de Estado associado a uma nação, no meio da crise mais devastadora dos últimos cem anos.
       Interessa-me, como trabalhador/ operador/ operário a partir da forma codificada do objecto literário romance, opôr, contrastar, indagar estruturas antigas ou dadas como adquiridas no Ocidente. Quero que o objecto que produzo possa provocar no leitor um deslocamento de sentido que o leve a indagar a validade destas estruturas. Idealmente, o resultado de leitura que pretendo é o que se opere um desligamento de certas funções civilizacionais no Ocidente.
       Explico-me: em despaís trabalhei directamente com a ideia do fim de um país a partir da crise. Mas o objectivo de um dos narradores, que o historiador era (e é) provar a tese que o Estado-nação, enquanto construção sustentacular do Ocidente, está terminado ou já terminou. O que é um país sem Estado? O Estado-nação ainda existe? Faz falta? É uma função operativa? Serve como grupo de cidadãos, como perguntava Rousseau n’ O Contrato Social há 300 anos? Ou o Estado-nação é já uma construção automática, descerebrada, utilizada por entidades estrangeiras e estranhas a ele para continuar um programa de exploração capitalista dos cidadãos? Não quero aqui explicar algo que não cabe aqui, mas apenas explicitar que não estou a atirar sobre o Estado-nação de uma forma populista ou gratuita. Mas só deixar uma pergunta: a essência e as funções do Estado como organismo e conceito, continuam a funcionar? É o que Hegel dizia que o Estado deveria ser: “a realidade da ideia ética”, “a imagem e a realidade da razão”? É o que Rousseau defende: «a união dos cidadãos»?
       Esta obsessão desconstrutiva não terminará neste romance. Interessa-me estudar as representações que associamos à ideia de Estado, desde os seus brilhantes e definidos representantes ou formulações, os estadistas, enquanto produção do próprio sistema como ferramenta da sua auto-sustentação.
       Paralelamente, a ideia de identidade individual. Não tanto como ela se mantém, subsiste ou até progride de um modo globalizado e marcante; mas como se sustenta perante as imagens que os outros têm do eu.
       De facto, neste tempo em que escrevi o romance, também observei Portugal visto de fora. Se é certo que a crise tem roubado aos cidadãos a possibilidade de futuro, fazendo-os focarem-se num presente angustiado, um hoje de instável sobrevivência, como nos anos 1930, por outro lado, tem demonstrado algo diferente: como a portugalidade vive uma intensa tensão entre o passado glório e inglório, e um futuro apenas projectivo a partir do passado. Essa consciência da ausência do presente é em parte a essência do que definimos como saudade; o que desejamos é um presente que não existe, delineado a partir das cores douradas do passado.
       De facto, um país não existe apenas como uma entidade constitucional, como um Estado. Existe também e sobretudo porque se edificou e mantém através de um sistema de mitos. São acontecimentos históricos, ou acontecimentos ficcionais embebidos em contextos históricos, que contêm e potenciam a história de um país.
       Ou seja: interessa-me, mais do que o mercado de capitais do ego que a Literatura tanto parece ser estes dias, trabalhar o mercado de capitais simbólicos. Procurar operar também a partir do conceito de violência simbólica de Pierre Bourdieu, e do conceito de ressonância de Stephen Greenblatt, mas enquanto operário da máquina que é um romance.
       As Pirâmides continuam activas no seu poder simbólico. Antes monumentos funerários que mantinham a glória de um soberano para além da morte; depois enigmas maravilhosamente monstruosos do passado; depois troféus coloniais, napoleonicamente falando. Hoje, entre tantas outras coisas, um símbolo de que o progresso não é exclusivo do presente, e que este significa sempre transcender as contingências, ter a bravura de planificar e erguer para fora do tempo, como os nossos políticos parecem ter-se esquecido. Como as Pirâmides, concebo o romance como método e objecto.
      
Pessoalmente, o que foi o processo deste romance: este livro: um pássaro meio corvo meio abutre que me saiu das noites de amor com a minha cidade.
E porque um livro não se escreve sozinho, porque um livro é um resultado de muitos encontros, energias e decisões, quero propositadamente terminar enfastiando-vos com uma longa litania de agradecimentos. Um livro, para mim, é também a soma insuperável de gratidões que o gerou. Não estaríamos aqui se não fossem estas pessoas, uma a uma, a quem devo cada palavra deste livro:
- à Maria João Manso, «amiga e num instante, minha irmã», como disseram Natércia Freire e Clarice Lispector uma da outra. Cada dia foi o apoio em cada uma das mil fases do percurso do livro, para além de uma rigorosa e inigualável revisão final.
- ao João Pedro de Vasconcelos, meu amigo de sempre, que sofreu o livro em várias fases, e que o leu várias vezes com a paciência da sua profissão de médico, pescando doenças crónicas e incoerências. o seu espírito crítico é um dos maiores tesouros que tenho na minha vida.
- ao Ludovic e à Marie-Noëlle, que leram, sofreram, discutiram e apoiaram este livro, em várias versões, quando ele era ainda um pequeníssimo esboço. O seu amor por Portugal foi um baluarte de olhar e de distanciamento afectivo para equilibrar a minha escrita deste livro. E que sempre, em todas as fases e de tantas formas, são uma energia tremenda e estável que me ajuda a ser.
- ao Francisco Ribeiro Rosa, que teve a coragem de ler várias versões, e dizer, de uma das primeiras redacções: «Pedro, este livro está entre aceitável e bom. Podes fazer melhor.» Se todos os escritores tivessem um amigo com a amizade e a coragem no lugar certo como o Francisco tem, a Literatura iria muito mais longe. Obrigado muito, Xico. E com o Xico, agradeço aos outros leitores benévolos e críticos do livro, a quem pedi que fossem implacáveis: Gabriela Pereira, Maria Teresa Paulo.
- ao Daniel Falb, meu companheiro de discussão, de tradução e de percursos interiores, e à sua namorada Ulrike. A ambos agradeço terem discutido uma ideia abstracta numa língua que desconhecem. E sobretudo ao Daniel o apoio incomensurável de ir acompanhando o progresso de uma ideia. Também obrigado pelos textos que discutimos e que me rasgaram portas na cabeça para escrever este livro. Vielen Danke für deine unvergleichlichen hilfe.
- ao Daniel Houet, em casa de quem vivi na parte principal de escrita do romance, e que conheceu a fúria dos dias em que eu não escrevia uma linha. Ambos assistimos ao milagre da neve, que me fez avançar no romance, não sem muitas fúrias, muitas máquinas de café, demasiados cigarros, e sobretudo a cozinha empilhada dos muitos cozinhados que fiz quando não conseguia escrever. Sans ton aide, j’était le funcionnaire de moi même, pas le flanêur.
- ao Michael, o anjo, conselheiro constitucional.
- ao Marco, que fez o trabalho impossível de me fotografar; e que durante meses me foi libertando de dias de escrita desesperada.
- a algumas pessoas cuja presença e ajuda foram inesperadamente iluminadoras: o Lasse, o James, que me fizeram as perguntas certas na altura certa; o Christoph, com quem discuti os princípios do romance, num plano puramente teórico; a Patrícia, desencaminhadora oficial.
- à Porto Editora, que aceitou este desafio quando tudo concorria contra – e sobretudo à melhor coordenadora literária da história literária portuguesa, a Mónica Magalhães; à confiança da Dra Cláudia Gomes; e ao Rui Couceiro, um verdadeiro amigo e um responsável de imprensa extraordinário cujo olhar vê para além do presente; todos lutaram por este livro. Não o esqueço.
- às minhas irmãs que acharam uma loucura escrever este livro, e que ainda estão preocupadas: obrigado pelo afecto permanente.
- à minha Josiane, e ao Christian, que me acompanharam infinitamente em tantos planos. O meu agradecimento mais, mais profundo. A prova de apoio, amizade e confiança é inesquecível.
- aos meus pais, sempre e sobretudo, pelo apoio e pela resistência.
- ao Grémio Literário, que recebeu este lançamento, e aos muitos amigos aqui presentes hoje, e aos que se juntaram hoje também no flash mob.
- à minha avó Natércia, e a todos os meus amigos e familiares que estão já no outro lado da vida: agradeço o que me ensinaram e ensinam cada dia neste trânsito de água entre o céu e a terra.
- um agradecimento extremamente importante: a todos aqueles, graças a Deus bastantes, que de uma maneira sofisticada e activa, procuraram dificultar e impedir o meu trabalho. Não há criatividade sem obstáculos: estou-vos muito grato. Continuem o vosso trabalho, que eu farei o mesmo com o meu.
- e, por fim, à minha cidade de Berlim, mestra e amante, sem quem não tinha conseguido escrever este livro. A minha história de escrita deste livro com Berlim seria ela mesma outro livro. Só posso dizer que é possível uma cidade e um homem amarem-se e terem filhos - como este.

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