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Crónicas de Berlinzâncio (let's skip the counting): Cemitério de Brecht, parte I


O I. nunca tinha ido ao Cemitério de Brecht. 
- Os Cemitérios aqui não são como na tua terra nem na minha - disse-lhe.
- Mas a morte aqui está em toda a parte - disse-me enquanto passeávamos com um cigarro, de olho na viúva eterna que parece eternamente regar a campa do marido.
- São jardins para o infinito.
Contei-lhe que quando tive a notícia de que ia ficar por mais tempo em Berlim, estava aqui. Que a primeira vez que vim a Berlim, o Tiago me trouxe aqui e que por causa disso um poema precisou de mim, deste espaço.
- O meu espaço de trabalho é entre as palavras e as reacções. É um espaço enorme. Às vezes é um cemitério.
O I. e eu continuámos a discutir que árvore seria a mais feliz do cemitério. Pedi-lhe que me tirasse uma fotografia junto do túmulo, porque só tinha a que postarei no próximo post, tirada no dia da notícia, 17 de Novembro. E eu queria uma com o Brecht.
- Para te pôr ao lado dele, Pedro, tenho de tapar a Helene. Achas que ela se importa?
Achei mentalmente que a Helene não se importava. Passou anos a lutar pela obra do marido, a ligá-la a outras pessoas e lugares. Ela gostaria.
Fotografia tirada, eu sentado aos pés dele, no pequeno muro que lhes cerca a sepultura. Pensava como era fácil agora o que fazem com Brecht, o rótulo do mais burguês dos cidadãos da RDA, demonização injusta depois de uma beatificação em vida. Fazem das pessoas símbolos e depois elas não podem passar entre vírgulas, que se parte tudo.
Revimos a fotografia no écran da minha máquina e fiquei feliz, apesar de um ar um pouco trop sérieux. Mal tínhamos abandonado a sepultura, já a pensar no passeio que daríamos a seguir, quando uma mulher cinquentona, a magreza a contrastar com os olhos claríssimos, cabelo escorrido e máquina em punho, me pergunta em Inglês:
- Conseguiram encontrar o Brecht?
- É já ali, mesmo.
- Mesmo aqui ao lado! Como é que me escapou?
Olhei para ela. Repeti o que tinha contado ao I., quando chegámos.
- Sabe que ele vivia ali, naquela casa, e ao escrever podia olhar para o sítio preciso onde seria enterrado?
É certo que eu estava muito sentencial nesse dia. E por isso a americana de máquina, ao ouvir a mesma história, abriu os olhos e disse:
- Really? Amazing.
O I. e eu saímos do Cemitério.
- Viste isto?
- Vi o quê, Pedro?
- Porque é que aquela mulher tinha de nos perguntar a nós? Uma mulher que falou em Inglês, parecida com a Helene, e que nos pergunta logo depois de termos tirado a fotografia que eu queria ter feito há tanto tempo? Achas isto habitual?
- É uma coincidência interessante.
- Comigo é sempre assim. Os símbolos trabalham a toda a hora. E sim, a Helene não se importou com a fotografia, e o Brecht continua a conversar.

Valeu-me a forma serena e pragmática, mas muito sensível e imaginativa do I., para não passar uma tarde em reflexões simbólicas. Ainda bem. Porque não precisava: os símbolos persistem. Parecem cemitérios, mas são árvores a alimentarem o sentido.

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