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Crónicas de Berlinzâncio: Cemitério de Brecht, parte II

E agora o poema, escrito em 2008 e publicado já em vários lugares. Uma excelente versão inglesa pode ser encontrada aqui.



[cemitério de Brecht]

a minha infância é um animal deserto roendo as escarpas de Deus

ouço-a respirar a luz consciente
ainda da sombra cegueira que montanha os dias

procuro aquele que nasceu ontem de agora
é um movimento sem mãos
somos separados por um corpo mas unidos por uma cidade
somos a interferência da luz antes da luz
e eu quero despedir os olhos mas a cegueira sou eu

projecto-o contra os muros da cidade
há quem nunca mais tenha voltado de si mesmo
ouve-me e regressa-me

a minha respiração dói mais que os meus pés

nos mares de ruas levantadas
no acto físico de andar na pedra o que foi o coração
mil vidas antes todas ressuscitadas
sinto a recordação da minha própria vida
a rasgar a devolver a reter o próprio coração

a vida é uma água de pedra
bebo-lhe a chuva de luz
vejo-me devolvido o rapaz maior que o seu corpo
um rosto perdido entre movimentos suspensos
e todas as coisas que pisamos esgotados de ilusões

numa lápide que foi água triturada
a sobreposição de corpos quebrados
no coração dos olhos um ser que se amou
há milhares de sentimentos atrás
e o futuro a construir-se bombardeadamente do imperfeito

vejo-o-me
no centro de todas as ruas ressuscitadas
avenidas do que há de ser em jamais
e esquinas do impossível erguidas com o que afoguei no coração
uma cidade nasceu um homem

Berlim, Cemitério de Brecht, Agosto de 2008

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