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despaís: writer's cut I

Postarei nos próximos dias alguns excertos de despaís que não constam do livro impresso: cortados na revisão, ou mesmo escritos na primeira versão e depois não colocados.

[Mark]
Lisboa era, naquele Setembro de 2023, uma espécie de barco naufragado no seu próprio destino. Ao passear pelo Terreiro do Paço, observava os escritórios dos assessores políticos, fechados e protegidos com madeiras - eram sem conta as vezes que a população irritada tinha destruído as janelas dos pequenos poderes. Spin doctors e boys tinham já feito as malas há anos para empresas públicas mais vigiadas, ou para simpáticos gabinetes europeus. As pessoas estendidas pelas ruas, ou andando como fantasmas, a agarrarem-se a mim a pedirem dinheiro ou cigarros, ou a oferecerem-se para trabalhar. Homens sem dentes, ou de dentes pretos, mas bem vestidos. Nova pobreza.
O que mais me impressionou naquele passeio foi a certeza de que estava numa capital europeia, uma das mais antigas do mundo, a mais ocidental da Europa, e que Terceiro Mundo e Primeiro Mundo pareciam construir-se das ruínas um do outro. E que tudo ainda me parecia mais frágil no país mais antigo da Europa. Se caem primeiro as raízes, o que acontecerá depois?

[velha]
os carros nos passeios e as pessoas nas estradas, era outra vez a rua para as pessoas como há muito. como no tempo em que eu era menina e havia o campo e os carreiros eram a porta do mundo. «pernas de torno», dizia-me a mãe, tapando-me com a saia gasta a única que tive até aos quinze quando vim servir para Lisboa. os rapazes queriam sempre subir-me a saia, como o Zé Caneca naquela manhã antes da feira, no vinhedo do Cabeço, quando me pôs a mão cá dentro. Mas havia uma ratazana no muro que descia com heras e vinhas, vi-lhe os olhos vermelhos quando eu sentia água a ferver entre as pernas. o padre não ia gostar, o padre também não a tem a funcionar como Zé, é por isso que há padres. na baixa não há carros nos passeios mas há vidros no chão e montras partidas. ali foi onde o Zé me comprou o anel de noivar, depois a loja foi um restaurante depois um banco agora é um buraco, como quando eles saíam do meio dos arbustos e comiam-me as mãos e a imagem da Senhora das Dores, ali antes comprava-se gelados que se chamavam neve mas nunca mais a consegui limpar de dentro de mim, a mão do Zé nunca desapareceu, ele não conseguia, era só a mão, foi bom pai, porque é que se meteu a comprar a casa que não podíamos pagar, o cheiro doce dos vinhedos e da mão dele, «para os filhos», dizia, os filhos não querem isto, pensava eu, mandam cartas de sítios longes com neves e crianças que eu não conheço, já nem sinto as pernas. levam-me às costas, é um rapaz novo, sinto os músculos dele, mas as botas do lixo puseram-me morta cá dentro. deve ser o meu pai, é isso, será o meu pai, lá ao fundo o arco da rua augusta, não oiço o relógio tocar. o Zé Cabeço não foi pai de nenhum dos meus filhos mas ele não se importa. o Zé nunca mais tomou os medicamentos, também nunca mais o vi, ele não gosta das cartas dos bancos, olhei para ver se o via mas só carros e árvores a arder eu já não distinguia pelas avenidas fora, só na Baixa é que não, mas há vidros como aqueles que eu tenho certeza estão no coração e no estômago, as pessoas à porta do prédio punham comida em cima da imagem de nossa Senhora das Dores, que falta me fazem os medicamentos, pai, parece que vejo o terreiro do paço cheio de ratos enormes, a cauda na frente, e botas de um lado para o outro. o meu pai corre comigo depressa, como o Zé e eu fugimos de entre os vinhedos quando ele pôs a mão cá dentro, o que é que ele foi lá buscar mas sinto falta, nos vinhedos das avenidas há ratos mecânicos de olhos vermelhos como o que me via do muro, a neve negra dói-me, lembram-se as minhas mãos. e os carreiros e os vinhedos foram todos incêndios, as pessoas nas estradas e os carros nos passeios, ardem como árvores, há vozes de comando, talvez seja o padre na igreja a explicar que nunca a teve, ou que o sino se avariou, nunca mais ouvi, os ratos mecânicos avançam, o meu pai ou o meu filho já não sei é a falta dos medicamentos corre comigo, já não me doem as pernas, as minhas mãos estão verdes, azuis, deve ser dos medicamentos, ou dos ratos, ou dos frios, ou de agarrar os vinhedos e o muro quando o Zé põe a mão cá dentro e a neve negra nunca mais vai desaparecer, corria, pernas de torno, dizia-me a mãe, chegámos a um barco, abana, deitaram-me num banco, há um menino que parece o Afonso, vê-se azul lá fora, também as minhas mãos, e há vidros inteiros como janelas e eu sinto o mar do outro lado dentro dos olhos, corre, escorre, move-se, o mar para as pessoas, são muitos barcos, o terreiro do paço ao fundo com um relógio que já não funciona mais, quem o terá partido, foi o padre ou fui eu que não tomei os remédios, o terreiro do paço é um grande muro com ratos de olhos vermelhos. o barco vai para sagres, dizem, não me aguento nas pernas, uma mulher senta-se no chão e põe as minhas pernas nos seus ombros, grito, vai ver a neve negra, mas o menino vem, o Afonso, sorri-me, é o meu neto na Dinamarca na escola primária, a neve dele é branca e é um sorriso, acalmo, falta-me o remédio, já não tenho o anel de noivar nem a mão direita, nem a mão do Zé dentro de mim nem os filhos que fizeram nem a casa que pagámos, nunca tivémos dinheiro, vim para Lisboa servir com quinze anos e grávida da mão do Zé

Comentários

Alberto Pereira disse…
Acabei de ler hoje. "Despaís" é um livro muito bom, onde conseguimos vislumbrar o naufrágio que Portugal pode atingir. Embora de forma ficcionada há muita coisa no seu conteúdo que aspira a ser real.
O caos dá sempre mais passos do que imaginamos.
Será esta obra de ficção ou real?
Só o tempo o dirá.

Alberto Pereira

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