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Crónicas de Berlinzâncio, XXXVI: Bis Gleich Abschied

Uma piada antes de um texto que me anda a moer há uns dias. «Gleich» em Alemão é «igual». Quando pela primeira vez o M. me disse «bis gleich», perguntei-me o que seria isto: «até igual?». Era até já. 
Já Abschied é "Adeus", mas ninguém o diz. É literário, definitivo, dramático. É o último Andamento da "Canção da Terra" de Mahler.
Este é então um «Adeus Até Já», mas que dói como definitivo.

§ § §
 


Quarenta e cinco dias. Não sobrevivo sem ti.
Disse isto a algumas pessoas na minha vida, nas estações de comboio e de autocarro da adolescência eterna dos sentimentos maiores do que o presente. Depois voaram os transportes todos, as metáforas todas, e ficou apenas esta sensação indecisa e permanente de saber que se vai deixar, um dia, alguém bem maior do que o presente, bem maior do que o afecto quebrante, devorante. E que aí vai ser maior, durável na carne do tempo.
Afinal eras tu.
Não pensei nunca que fosse possível: este abraço de sede, esta fome de ruas incomensuravelmente nuas, esta casa inquieta que se constrói a cada instante. Não te esperava, mas sei que me esperavas, de tão longe, desde as tuas feridas. Espelho de vísceras profundas, onde se mata ou se ressuscita - assim és tu, meu amor de tão longe e de tão eterno e insuperável presente.
Porque é que deixar-te é como ir para o passado? É como ser esquecido do mundo, ser esquecido de mim? Como se fosse possível experimentar a morte, uma vez toda e inteira, «a queda, o corte».
Não é apenas a ti que te deixo. Deixo-me a mim. Não se trata de nós, pela primeira vez, como nas paixões «há milhares de sentimentos atrás». Tu não precisas de mim. Tu é que és, precisa e definitiva, como uma estrada que fosse casa.

Digo-te apenas que volto. Não me ouves, não precisas de ouvir.  Tu escreves-me. Eu inscrevo-me em ti.
Os dias bombardeados de infinito ardem-me os olhos do passado e do futuro. Os corvos cantam o futuro em cores ácidas, inesperadamente cor. E quem ainda não fui regressa. Acena-me desde mim próprio. Agarra-te no coração, a pedra tornada sangue. E levando-te contigo, impossível, desviaja. 
Nenhum de nós precisa de prometer nada. Sabemos ambos que tu és a promessa, porque vivo em ti como parte da tua própria fome. Minha casa imparável, inquieta, eternamente viagem - minha cidade.

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