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Crónicas de Berlinzâncio, XXXIV: a canção da chuva

Mais ruas. Mais ruas.
Largas para o meu coração novo, largas para a incomensurabilidade do presente e do futuro, esse abraço que me esmaga e me cria a cada instante. Sou tanto eu de mim que não consigo concebê-lo mais. Sinto a respiração do tempo e de Deus no meu próprio coração. Mais ruas, mais ruas.
Troveja. A chuva inteira nos meus olhos. Tiro os óculos, vejo nada. Só o cheiro da terra, erde, antigo e essencial, novo e novo. A cidade inteira é uma pergunta para os meus pés e a minha alma. Uma espécie de nada com a forma de quase tudo abraça-me o corpo com os olhos quebrados. Sigo adiante. Mais à frente a linha dos horizontes totais, dos progressos que fazem frio e fome. Chove aqui e tão mais longe de aqui e hoje.
O futuro falso esmagou-se tão na raiz do coração. Pensava que doía. Afinal a terra cresceu, sedimentou-se inteira. Sou tão mais longe de mim. Frio e fome. Troveja. A chuva no futuro - das lied von der erde. A terra, o céu, o passado e o futuro são um só. 
Escrevo isto, escrevo as palavras a repetirem-se, mas o momento é o oposto, a novidade total, a união do espaço e do tempo e do sujeito. Como se tudo recomeçasse do início total eu.
As ruas confirmam-no, desdobram-se como se fossem novas. Mais ruas, mais ruas, pede a chuva, a canção da terra na água, da água eu.


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