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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2013

despaisadamente, parte II

- Imagine que pode comprar um bilhete para ir ver a nova atracção de Manhattan: a Torre dos Clérigos. - Imagine que os quadros de Museus Portugueses são atracções mundiais de museus Russos, Chineses e Brasileiros.
- Imagine que as estátuas seriam todas arrancadas por multidões; e que viveria em comunidades campestres tipo "robin dos bosques". - Imagine que quer ir do Porto a Lisboa e não pode, porque o seu país acabou e nãi há documentos de identificação válidos.
- Imagine Portugal sem dívidas - mas morto por causa disso.

despaisadamente, parte I

- Imagine que acorda e que o país onde nasceu e morreu acabou. - Imagine que o seu bilhete de identidade vale nada: ou melhor, pode ser bem vendido como peça de Museu. - Imagine que o território do seu país foi vendido a empresas sem rosto. - Imagine que o seu país está deserto: uma parte fugiu, a outra está a afogar-se. - Imagine que os Jerónimos foram vendidos e desmontados e agora ficam ao lado da Muralha da China.

Os breves regressos infinitos, I

Regressar a Portugal, por uns dias. E mais do que rever as pessoas que são parte da estrutura do meu coração, ou dos espaços em que vivi tanto tempo e onde cresci, das memórias que devem ser revistas, mortas, remendadas, rever uma pessoa que eu não conheço. Entrar numa casa que foi nossa, num espaço que antes era o prolongamento do corpo, onde se reclinava a cabeça para a largura dos dias, e ver sempre traços de alguém. Cadernos, discos, livros, anotações, hábitos. Ver que alguém ocupou este espaço, alguém pesado, alguém que não sou eu. Alguém que era eu agora.  Mas esta pessoa é um caminho, é um espelho morto que pode dar vida: eu devo perceber quem foi pelos restos que deixou. E neste meu antepassado de mim perceber quem eu sou hoje. Soube sempre interessar-me pelo estrangeiro de mim. Mas nunca me pensei meu antepassado. O que há de infinito nos regressos, mesmo breves, mesmo que não sejam regressos.

um poema em prosa em viagem

Crónicas de Berlinzâncio, XXXVI: Bis Gleich Abschied

Uma piada antes de um texto que me anda a moer há uns dias. «Gleich» em Alemão é «igual». Quando pela primeira vez o M. me disse «bis gleich», perguntei-me o que seria isto: «até igual?». Era até já.  Já Abschied é "Adeus", mas ninguém o diz. É literário, definitivo, dramático. É o último Andamento da "Canção da Terra" de Mahler. Este é então um «Adeus Até Já», mas que dói como definitivo.

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Quarenta e cinco dias. Não sobrevivo sem ti.
Disse isto a algumas pessoas na minha vida, nas estações de comboio e de autocarro da adolescência eterna dos sentimentos maiores do que o presente. Depois voaram os transportes todos, as metáforas todas, e ficou apenas esta sensação indecisa e permanente de saber que se vai deixar, um dia, alguém bem maior do que o presente, bem maior do que o afecto quebrante, devorante. E que aí vai ser maior, durável na carne do tempo. Afinal eras tu. Não pensei nunca que fosse possível: este abraço de sede, esta fome de ruas incomensuravelm…

Crónicas de Berlinzâncio, XXXV: A Parábola dos Elefantes e dos Escritores

Estou sempre a escrever nos transportes. É uma das (poucas) desvantagens da bicicleta, devo admitir. No ubahn e no sbahn é automático, quase uma atracção incontrolável. Mas numa das vezes que fui sair à noite,  apanhei de volta o meu autocarro M29 (que convenientemente vai de porta a porta, até minha casa). Eram 2h30 da manhã, sentei-me e estava tão cansado que decidi escrever, além de querer anotar as personagens com que eu e a minha amiga P. nos defrontámos nessa noite. Só havia um lugar, à frente da porta de saída, daqueles que ficam defronte. O autocarro vai sempre cheio de saidores nocturnos, trabalhadores nocturnos, estrangeiros diurnos. Sentaram-se uns tipos alemães agarrados à sua cerveja "Elephant". Eu escrevia, já com técnicas para que o balanço do autocarro não impedisse a letra de se tornar ilegível. De repente oiço perguntarem-me em Alemão: - Aposto que quando fores ler isso não percebes nada. O meu interlocutor era um Alemão típico a que só faltava a far…

Crónicas de Berlinzâncio, XXXIV: a canção da chuva

Mais ruas. Mais ruas.
Largas para o meu coração novo, largas para a incomensurabilidade do presente e do futuro, esse abraço que me esmaga e me cria a cada instante. Sou tanto eu de mim que não consigo concebê-lo mais. Sinto a respiração do tempo e de Deus no meu próprio coração. Mais ruas, mais ruas. Troveja. A chuva inteira nos meus olhos. Tiro os óculos, vejo nada. Só o cheiro da terra, erde, antigo e essencial, novo e novo. A cidade inteira é uma pergunta para os meus pés e a minha alma. Uma espécie de nada com a forma de quase tudo abraça-me o corpo com os olhos quebrados. Sigo adiante. Mais à frente a linha dos horizontes totais, dos progressos que fazem frio e fome. Chove aqui e tão mais longe de aqui e hoje. O futuro falso esmagou-se tão na raiz do coração. Pensava que doía. Afinal a terra cresceu, sedimentou-se inteira. Sou tão mais longe de mim. Frio e fome. Troveja. A chuva no futuro - das lied von der erde. A terra, o céu, o passado e o futuro são um só.  Escrevo isto, esc…