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O Rectângulo Antropofágico, I: Roubar Velhinhas é um direito

Tenho tentado não ler os jornais portugueses, evitar as conversas lusitanas com a minha família e amigos que vivem em Portugal. Não é uma forma de fuga, é também uma epoché, uma suspensão de juízos, devido sobretudo ao meu romance que sairá em Julho, e que fala da crise em Portugal e de uma formulação parcialmente em virtual history do que serão as suas consequências. Precisava de um distanciamento para ver melhor.
Mas sinto não poder mais calar a tinta da pena com a dimensão destes assaltos. Que não são apenas ao bolso dos contribuintes, são sobretudo simbólicos e essenciais: são contra a própria ideia de contribuinte, de cidadão, da própria essência do Estado, como Ocidentalmente foi construído.
Aqui começo uma nova secção do blogue, uma espécie de Notícias do Bloqueio (citando o incomparável livro de Egito Gonçalves), a que chamarei O Rectângulo Antropofágico. Porque é isso que se passa: Portugal a comer-se a si próprio, com a ajuda externa como matadouro.

I. Roubar Velhinhas é um Direito
Imaginemos o sr. X, 65 anos: trabalhou a vida toda desde os 20 anos. Durante estes mais de 40 anos, uma parte do seu ordenado foi retido pelo Estado para a sua própria protecção: para construir uma reforma que o sustentasse nos anos de descanso. O Estado, soma do grupo de todos os cidadãos, como aponta Rousseau n' O Contrato Social, pessoa de bem porque união de todos os indivíduos, guardou durante anos esses valores para a protecção de cada um dos seus constituintes. Até aqui tudo bem.
Ou seja: o Estado guardou em si dinheiro que não era para si - mas para o futuro de quem constrói o Estado com o seu trabalho, a sua actividade, o seu esforço. As estruturas da igualdade estariam asseguradas.
Depois começaram as pirâmides - a história do Estado funciona ao contrário da História: passámos da contemporaneidade para a Antiguidade. E as pirâmides foram coisas que a minha geração começou a ver nos jornais. Antes, antes da queda do Muro, eram as páginas de comparações entre o armamento do Pacto de Varsóvia e da NATO. Depois, as pirâmides: ah, parecia que havia muita gente idosa e pouca gente a trabalhar, e que o dinheiro que o fiabilíssimo Estado ia guardando começava a não dar para todos.
E agora, com a crise, passámos de um Egipto etário aos caçadores neolíticos: os senhores que GEREM (porque é isso que são, têm um contrato de representação da totalidade do grupo de cidadãos) tornaram-se os senhores que GERAM o Estado, que o refazem, que o cortam e esquartejam, como um homem das cavernas faz a sua caça. E a caça qual é agora? Os pensionistas. 
Não satisfeitos de usar dinheiro que não pertence ao Estado, que é guardado apenas por ele, vão ainda reter valores dessas pensões com efeitos retroactivos. Os homens das cavernas não querem já a vaca, mas a mãe, a avó da vaca, até chegarem aos dinossauros. 
Mais: a partir das determinações financeiristas que são agora impostas num país vigiado pelos credores, actua-se sem respeito pelas leis do grupo, isto é, do conjunto de cidadãos que criou o Estado. É assim: uma terceira pessoa chega a minha casa e começa a tirar os móveis e a vender os meus bens. 
- Mas o senhor tem alguma lei para fazer isto? 
- Só determinações internacionais! De credores!
- Mas eu não tenho dívidas!
- Ah, mas tem o seu país.
- Mas eu decidi isso?
- ...
O Sr X. está a perder tudo o que poupou, colocando nas mãos do Estado. O Estado de que ele é parte integrante. Uma parte de si rouba a outra apoiado no direito dos credores, que não está escrito em parte nenhuma.

Ainda haverá Estado? Ainda haverá um Estado quando os gestores do Estado desrespeitam a própria Lei que os elegeu?

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