Avançar para o conteúdo principal

Crónicas de Berlinzâncio, XXXIII: quatro cervejas e uma rua em Shostakovich





Um poema que escrevi em Berlim há sete anos atrás, publicado já em diversas antologias, mas que me está a acontecer, a formar-se e a tornar-se real, verso sobre verso.





[quatro cervejas e uma rua em Shostakovich]

podes ter a certeza que as mãos te vão deixar
começa sempre pelas mãos reparaste nos dedos
de quem te abandonou como se dobravam depois do toque
ou nas espécies extintas as fotografias solitárias
de seres em movimentos justificados

podes guardá-las dentro do casaco afinal cabem
só na eternidade e ainda faltam muitos tecidos de inverno
para isso se puderes ainda tenta pintá-las mas com o teu próprio
sangue ver-se-á melhor do ângulo cego da sala
onde deixarão de te ser úteis

podes sempre tocar no que tocaram
reaprender as mãos
como quando nos devolvemos uma rua submersa
e se faz pedra e luz
sobre o espaço do nosso próprio nome

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…