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Crónicas de Berlinzâncio, XXXII: "Don't Rob Us"

É verdade que é um dos bares mais estranhos de Berlim. E por isso, um dos melhores. A P. e eu fazemos dele o nosso poiso. E é também um dos sítios onde não posso escrever: a acção é de tal forma socialmente incrível que é preciso apenas ter uma cerveja, um bom maço de cigarros, e ter os nossos quatro olhos para absorver tudo. 
Já lá tivemos uma noite gloriosa, mas também já apanhámos com casais espanhóis e americanos com as conversas mais chatas do Universo e arredores (nem toleráveis em Plutão, que já nem planeta é).
Numa das noites intermédias, conhecemos um estranho trio. É mesmo a palavra, composto por violino, violeta e violoncelo. A violino, loiríssima, a D., era da ex-RDA e apresentava-se vorazmente como tal. A viola, mais grave, parecia ter dezoito anos, mas tinha decerto mais. Vinha do Canadá e era compositora. Os laços físicos entre a violeta e a violino pareceram-nos claros desde logo. O violoncelo era o Rob: cara de sósia - em mau - do Errol Flynn; meneios de cabeça e de braços como se se afundasse nele mesmo. Um rosto apresentável, mas quebrado por milhares de invasões.
Depois de um casal composto por um lutador de sumo vestido de gótico e o seu namorado a imitar Michael Jackson num dia de lua cheia ter saído de uma mesa, discutimos à portuguesa com o trio podermos partilhar com eles o lugar. «Só até os nossos amigos chegarem.» Mas chegaram e lá ficámos todos, com mais uma croata e um sul-americano não sei de onde (na verdade, no estado em que vinha, acho até que já nem ele sabia).
As moças eram simpáticas; o Rob mantinha-se silencioso e vogante. Quando se apresentaram, a P. fez a piada:
- Rob?!? Please, don't rob us.
Palavras sábias, iluminadoras, para o que se viria a passar a seguir.
De 20 em 20 minutos, o violoncelo voltava-se com arcos de braços no ar para as duas meninas de corda e dizia-lhes:
- Quero beber.
Ou:
- I'm HERE.
E elas apressavam-se a comprar-lhe bebidas. Sempre a dobrar.
Depois, quando a noite aqueceu e a dança apertou, o Rob começou a abraçar-se a uma delas, para irritação suave da outra. Os beijos sucediam-se, os amassos nas cordas, os pizzicattos linguísticos. Para logo violino e violeta se trocarem nas atenções do ladrão, que pelos vistos arranhava melodias fora da sua partitura.
Saímos quando o destino daqueles três seria decerto uma composição tão molhada quanto zangada; uma dinâmica de fluidos muito mais compensatório-psicológicos do que verdadeira mecânica.

Era verdade. O Rob vivia de roubar-se.

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