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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2013

o que é que o menino Afonso toma ao pequeno-almoço?

- Tchaikovsky. Bem quente.

Ele acorda-me de manhã, oscilo e hesito em direcção ao fogão onde a cafeteira é a primeira coisa a começar, sol verdadeiro do dia. Mas logo a seguir a aparelhagem, a única versão que tenho aqui comigo, a 6a de Tchaikovsky bem cedo, 8h da manhã, às vezes mesmo 7h30, que bom viver num país de pessoas madrugadoras. A primeira hora e meia, às vezes duas, são dele. O menino Afonso bebe Tchaikovsky, ao som da cafeteira de café líquida nos meus lábios, eu ainda não sou eu, acho que sou o menino Afonso que ocupa o meu acordar e toma conta dos meus pensamentos. E fala. Fala. Fala o tempo todo. Resquícios de um doutoramento que ainda não foi erradicado de algumas células cinzentas? Ou agora que passo de romance em romance? Como não faço afectivamente, faço-o literariamente - será efectivamente?
- O menino Afonso quer uma cerveja? - Tchaikovsky. Bem frio.
Não, Afonso. À noite não.

Crónicas de Berlinzâncio, XXXIII: quatro cervejas e uma rua em Shostakovich

O Rectângulo Antropofágico, I: Roubar Velhinhas é um direito

Tenho tentado não ler os jornais portugueses, evitar as conversas lusitanas com a minha família e amigos que vivem em Portugal. Não é uma forma de fuga, é também uma epoché, uma suspensão de juízos, devido sobretudo ao meu romance que sairá em Julho, e que fala da crise em Portugal e de uma formulação parcialmente em virtual history do que serão as suas consequências. Precisava de um distanciamento para ver melhor. Mas sinto não poder mais calar a tinta da pena com a dimensão destes assaltos. Que não são apenas ao bolso dos contribuintes, são sobretudo simbólicos e essenciais: são contra a própria ideia de contribuinte, de cidadão, da própria essência do Estado, como Ocidentalmente foi construído. Aqui começo uma nova secção do blogue, uma espécie de Notícias do Bloqueio (citando o incomparável livro de Egito Gonçalves), a que chamarei O Rectângulo Antropofágico. Porque é isso que se passa: Portugal a comer-se a si próprio, com a ajuda externa como matadouro.
I. Roubar Velhinhas é um …

Crónicas de Berlinzâncio, XXXII: "Don't Rob Us"

É verdade que é um dos bares mais estranhos de Berlim. E por isso, um dos melhores. A P. e eu fazemos dele o nosso poiso. E é também um dos sítios onde não posso escrever: a acção é de tal forma socialmente incrível que é preciso apenas ter uma cerveja, um bom maço de cigarros, e ter os nossos quatro olhos para absorver tudo.  Já lá tivemos uma noite gloriosa, mas também já apanhámos com casais espanhóis e americanos com as conversas mais chatas do Universo e arredores (nem toleráveis em Plutão, que já nem planeta é). Numa das noites intermédias, conhecemos um estranho trio. É mesmo a palavra, composto por violino, violeta e violoncelo. A violino, loiríssima, a D., era da ex-RDA e apresentava-se vorazmente como tal. A viola, mais grave, parecia ter dezoito anos, mas tinha decerto mais. Vinha do Canadá e era compositora. Os laços físicos entre a violeta e a violino pareceram-nos claros desde logo. O violoncelo era o Rob: cara de sósia - em mau - do Errol Flynn; meneios de cabeça e de b…

Crónicas de Berlinzâncio XXXI: A subida para Potsdam

De Wannsee a Potsdam na minha bicicleta: uma subida, no meio da serra. No dia dos meus 36 anos. O sol, o verde absoluto, os carros. E eu, que achava que me tinha esquecido de como se andava de bicicleta. A luz dói quando se sobe. O corpo pesa, repensa, recomeça. Hoje chegaram as últimas provas do meu romance: depois disso não posso mudar mais. O peso está ainda mais comigo nesta subida. O caminho para uma ilha, à direita: poderia fugir, adiar, mas nunca fui feito desse barro.  Um ciclista profissional ultrapassa-me e quase me abalroa - ou melhor, quase abalroa a minha fraca experiência ciclística. Ao fundo, os grandes cheiros de lagos e verdes. O futuro sou eu e as minhas escolhas - nada mais. O passado é o sangue: corre. O presente é a invenção de ambos.
Com muita música, dobro as subidas e descidas para Potsdam e mergulho no verde claro. É uma cidade, antiga de nova, plana, para os meus olhos inteiros.
Entro em Sansouci. Uma hora em que volto às páginas em que uma acção estranha, f…