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Jardins para o fim dos tempos: Mozart: Concerto para piano Nº 25

Desde os meus 16 anos que não consigo desligar a minha vida dos concertos para piano de Mozart. São 27, embora se descontem os 4 primeiros, adaptações de outros compositores. São portanto 22, veramente, um ciclo a que se pode voltar, depois de se atravessar um dia inteiro da alma à luz desta música de espelhos de água imortal.
O Concerto para Piano Nº25 não era um dos meus preferidos. Como o eram o Nº20, para as explosões dramáticas da alma, sobretudo D. Giovannescas; o Nº21, sempre, uma das bandas sonoras dos grandes momentos da minha vida, e para sempre a melhor gravação de um concerto de piano de Mozart, com Dinu Lipatti ao piano; o Nº 10 para dois pianos, a energia mesma; o Nº22, uma brincadeira quando os dias são surpresas; mas sobretudo o mal-amado Nº23, onde a história montanhosa do meu coração parece resumir-se, desdobrar-se, desmontar-se e explodir.
Este Primaverão de Berlim, que para mim se torna a cada dia um novo caminho, uma espécie de recomeçar a adolescência e ter uma nova adultez, tem neste Concerto para Piano Nº25 a sua banda sonora total, definitiva, imortal. Tanto, que ontem conduzi a sua orquestra de árvores, ventos e águas paradas do Lietzensee às 8h da manhã, ao volante da minha bicicleta, ela mesma a música.

Começa triunfal, afirmativo, quase uma coroação: estou aqui, glória declarativa. Como quando se encontra um lugar, um coração, um caminho inteiro que liga a vida toda: é a música de estar, uma declaração de presença. Segue-se um segundo tema, suave, quase uma pergunta, mas logo as cordas, tímbales, sopros, voltam à glória do primeiro tema: como se não soubessem verdadeiramente compreender aquela pergunta. Chegam ao segundo tema, de novo a questão, meio encantada, mas nesta introdução a orquestra parece não conseguir resolver o enigma, e regressa ao segundo tema, como um labirinto. 
A pergunta atravessa-a, volta ao tema «estou aqui», triunfal, e chama o piano. Este não segue o tema afirmativo, a sua natureza é bem outra, uma máquina encantatória de sofrer e fazer perguntas: repete a pergunta, e repete-a, e a orquestra só o segue, cordas e sopros, quando ele desmonta a pergunta. A orquestra tenta impôr-se, voltar ao primeiro tema, é como o mundo que exige afirmações, declarações, estar como ser: o piano não quer saber, primeiro, depois lá regressa, quase coagido a repetir o tema triunfal, mas o que lhe interessa é sempre perguntar, sempre perguntar, e devolver à orquestra, em beleza, a grande pergunta. E a orquestra insiste na glória, na afirmação, mas o piano foge. E durante dez minutos estamos neste diálogo, em que o piano sobe, desce, cresce, desmonta a pergunta; quando se perde, repetindo quase tons infantis, quase perguntas, nas suas escalas escadas de interrogações, sempre como acontece nos concertos para piano de Mozart, os sopros sobem como ele, como se a música só pudesse responder com beleza, com uma Primavera absoluta, às grandes perguntas interiores. Tudo parece plácido neste primeiro andamento, mas não há engano maior: tudo é uma dúvida essencial atravessando a profunda natureza das coisas. Estou aqui ou sou aqui? Podes nascer comigo ou preferes morrer na exterioridade absoluta? O piano sozinho, pela primeira vez, toca o primeiro tema apenas para o desfazer, para mostrar como nunca estamos no lugar em que pensamos, apenas no passado futuro do que somos.
Não há, para mim, representação maior em música deste jogo de perguntas e respostas, da inquietação de um inverno de alma longo donde ficaram raízes suspensas, que podem rebentar ou não, e a que a Primavera, com o seu jogo lento e sábio de terra-mãe, responde antes de transformar. É a música de todos os recomeços, dos que se perguntam desde os alicerces até poderem ser.
O segundo andamento é um vôo, apenas um vôo, intranquilo, nuageux, mas um vôo. No terceiro andamento, toda a sombria tranquilidade de Mozart parece dissolver-se num diálogo para piano e orquestra de sol.

As gravações seleccionadas, verdadeiramente seleccionadas, só podem ser poucas. Impossível fugir às integrais de Malcolm Bilson com John Eliot Gardiner (Archiv), ou à primeira de Christian Zacharias (EMI): instrumentos originais e mundo sonoro espantoso na primeira; uma pós-modernidade divertida e revigorante no segundo. Ainda nas integrais, András Schiff com o hiper-Mozartiano Sandór Végh, onde tudo marcha como se Mozart fosse um relógio suíço do céu, mas onde às vezes algum furor falta; ou Murray Perahia (Sony), porque não, se tiver de ser. Rudolf Serkin e Mitropoulos numa gravação demasiado histórica (Archipel), de som agressivo, mas onde se ouve toda a música de Mozart, das missas ao D. Giovanni, no tiro de água que é este concerto. Edwin Fischer no piano e direcção (EMI ou Testament). Estamos despachados quanto a coisas secundárias: porque a versão é a de Leon Fleisher com George Szell e a sua Cleveland Orchestra (Sony): só se consegue encontrar encomendando na Amazon americana. E está lá tudo: um piano suave e veloz, uma orquestra revigorada, inquietante, uma diálogo e uma aliança de sombras e luz.

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