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Crónicas de Berlinzâncio, XXXI: O Corvo

Quando o Outono vermelho foi mudado pelo longo Inverno, os pássaros chilreantes foram substituídos pela única ave que corta o branco frio de Berlim: o corvo.
Na minha memória, para além dos corvos de S. Vicente, para sempre na história e na bandeira de Lisboa, o pássaro era irremediavelmente uma coisa negra e atacante, companhia da Maga Patológica, amante de cemitérios, a considerar cadáveres uma delícia. Entre a neve, ouvir as asas negras grasnar sobre a tranquilidade trazia qualquer coisa de perturbador.
Até que comecei a escrevê-lo. Àquilo: o romance que escrevi aqui em Berlim, que é sobre Portugal.
Tive duas semanas em que pouco me saía da pena. Foi quando o Inverno verdadeiramente começou. Aí, saía de casa e eram apenas os meus passos e o grasnar dos corvos. S. Vicente e os corvos berlinenses uniam-se sob o gelo e o frio como se fossem um só, cristalizados, imateriais. E cada vez que os ouvia grasnar, dentro ou fora de casa, eram já uma terceira coisa a chamar-me: o próprio livro. Essa coisa necrófaga, negra, que me sobrevoava o pensamento e me comia os restos de vida. Entranhas que saíam das entranhas, e gritavam voando por mais.

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