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Crónicas de Berlinzâncio, XXX: Metafisicas Frigoríficas

Foi a primeira vez na minha vida que comprei um frigorífico. O que fará isto de mim? Será que a minha vida será diferente, que comprando uma máquina de frio e calor, uma bomba de calor como me ensinou o Michael, eu me refrigerarei?
Três semanas nesta casa sem frigorífico. Sobrevivi. O que nos não nos faz falta quando só construir o futuro nos faz falta.
O frigorífico tem uma porta branca, sem nome nem história. Como as portas que importam, não se dá por ela. A minha vida em Berlim é feita destas portas, surpresas, inesperamentos, que se cruzam e atravessam.
O aparelho é mais pequeno do que o espaço que tenho. Parece faltar alguma coisa em cima e nos lados. Gosto desta imperfeição na perfeição, esta segunda porta no relevo das coisas, desgeometria na organização. É sempre na falha que está o padrão, na pergunta nunca a resposta mas as chaves para a sua resolução.
Há quatro meses, perguntei-me, depois de um acontecimento fortíssimo aqui, se os símbolos  são para viver ou atravessar. Escolhi o primeiro, o símbolo arrastou-me depois consigo, e agora que é apenas símbolo, ressoante, percebo que são tudo. Porque precisam da carne para se edificar, para manter a sua potencialidade, o seu poder de serem portas para outros. Era uma porta simbólica, uma porta só. Não importava a porta em si, existia. Como todas as coisas, tem de se criar sendo, atravessando.
E eu que pensava que a vida era estática. E eu que aprendi que interior e exterior tocam-se para se re-significar. 
«Espere quatro horas para o ligar», disse-me o portador do frigorífico, alto e germânico com voz de trovão. Está quase na hora. Não o ligo sem lhe perceber o significado.
O que é que vai começar se eu o ligar? Que porta esta porta fecha, resume?
Estou tão simbólico que estou a escrever um texto sobre o que significa a porta do frigorífico que tenho à minha frente. Mas nesta cidade de pontes e ruínas que alargam energia a cada instante, cada coisa é uma abertura para tudo.
A tradução literal de frigorífico em Alemão é armário frio. É o que muitos pensam que Berlim é. Símbolo resolvido: tenho em casa o oposto do que esta cidade é para mim. Já o posso ligar.

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