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Crónicas de Berlinzâncio, XXVIII: Winter shirtless

O L. tem a teoria de que há camisas de Verão e camisas de Primavera, e de Outono e de Inverno. «Mas não tem a ver com calor ou frio, tem a ver com os padrões». Assim, o L. responde aos rigores do Inverno com padrões fortíssimos; e às cores reviravoltantes do Verão, sobrepõe-lhes um branco de neve. 
- Não estás a viver nas camisas uma espécie de contrário, de contraste com o tempo?
- É a única forma que eu tenho de existir, Pedro: sempre em contraste.

Nunca pensei ter uma teoria da vida a partir de padrões de camisas. E eu que pensava que tinha aprendido tudo sobre vida & moda, essas duas primas, uma libertina e outra solteirona, quando uma amiga me explicou há dias que também há carteiras de Verão e carteiras de Inverno.

Para mim, a única coisa que visto são estados de espírito de Verão e de Inverno. E em Berlim todos se alteraram. Com a neve e o frio, tenho uma energia implacável e uma boa disposição a toda a prova. Com o calor, sobretudo aquele sopro vermelho e turmóilico do verão lusitano, fico doente, tenho febres, o cérebro entra em greve, e cada passo me parece uma tortura. No Verão, sempre escrevi os textos mais fundos e pesados, talvez fruto de nunca ter recuperado de ler O Estrangeiro de Camus no pino de um Verão com 43 graus.

O L. ouviu com calma, enquanto fazia um cigarro de enrolar. E depois, sardónico, arrumou com a minha conversa de colecção Primavera/ Verão:
- Camisas não são estados de espírito - explica-me ele na sua sabedoria de vinte e poucos anos. São formas de mudar o mundo em cima da pele.

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