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Crónicas de Berlinzâncio, XXIX: Primaverão



Um cisne grasna contra um cãozinho, que se fecha no colo da dona, o medo nos olhos. A ave, imperial e zangada, continua a descrever círculos, como se fosse um cão a marcar o território. Ao meu lado direito, um berlinense sessentão endireita a manta (ainda não acredita que a Primaverão chegou) e continua a tomar notas muito concentrado; é todo caderno e camisa, ambos às riscas.
Atrás, cinco raparigas quase nuas, de tops largos, metem-se com o único rapaz do grupo, de calças corsárias e gestos deslumbrados. Falam em fazer um piquenique e teimam que ele deve acender o fogo, mas ele cumpre a lei e ali, no parque do Lietzensee, não é possível. «Vamos para Bellevue», diz uma, «ah, ainda é longe». Mas estão mais interessadas em que ele mostre que é capaz de fazer o lume. Ele foge, tímido. Adiante, na relva, ocupada por piqueniqueiros com mantas e projectos tórridos, um rapaz loiríssimo dança nos seus desenhos o que a música lhe diz; faz gestos largos e depois precisos, como se ainda procurasse o que já sabe que desenha.
A L. chega e conta-me da festa ilegal a que foi, semi-ocupação provisória, semi-utilização por bons motivos. Falamos se o conceito de “faber freund”, apesar de significar “amigo colorido”, será igual em Portugal e na Alemanha. Nós prendemos mais, asseguro eu, as cores são muito mais reduzidas. Talvez porque as tenhamos mais na paisagem. Mas todos os verdes do Lietzensee que reflectem o pardacento vivo das nuvens e a timidez clara do sol mentem-me a cada instante.
Levanto-me. Lembro o passeio de mota que aqui dei ontem, penso no passeio de Domingo em que vou estrear a minha “fahrrad”, a minha bicicleta que troquei com a V. por um concerto de Shostakovich. V., de quem me lembro tanto, e que gostaria deste Primaverão berlinense. Dedico-lhe mentalmente o dia – a ela que faz sempre ser Primavera em cada gesto que faz.
Berlim é outra cidade apenas três dias depois. Os bares e cafés que, pareciam, no longo inverno, conchas fechadas, abrem-se agora em portas amovíveis, esplanadas organizadas e esplendorosas. Há cafés no Ku’dam que nunca tinha dado conta que existissem. E o cheiro, este cheiro seco, áspero, vivo, entre água e rua, e céu e pântano e distância excessiva, maravilhada, e «futuro a construir-se bombardeadamente do imperfeito».
Berlim é várias cidades ao mesmo tempo, jura-me o H. E na Primaverão, ainda mais.

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