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Carta a uma miúda do século XVII, quando terminámos o nosso doutoramento tórrido

Carta a Sra. D. Felicianna de Milaõ, religioza no Mosteyro de Sam Deniz de Odivellas, escripta em emulação das suas metaphoras de jogos & beijandolhe as maons

Quando esta escrevo a Vossa Senhoria, uzo o pezar do coraçaõ e a allegria do tumullo. Pois sabe Vossa Mercê o quanto lhe quiz, e como o prezente dessa afeiçam doura e desdoura o jogo de cartas que hé a minha pobre hezistência. E pello pezar, jogo o Rei de Paus, que consigo foy verde. E pella allegria do tumullo, a carta da caveyra, o Az de Espadas, que naõ lhe toca, pois só Vossa Mercê consegue tornar immortais as cousas mais breves do mundo, como as cartas e os jogos que as suas maons implicam.
Na duraçam d'estes cinquo annos, fuy-vos fiel tanto quanto um poeta trintanário e uma religioza ma non troppo do seculo dezassete o podem ser. Muy aprendi com as prendas de Vossa Mercê. E estoulhe grato & devedor. Afrontozas vezes senti que Vossa Mercê me fogia, que comigo zombava, escondendo seus escritos. Quisme freyratico, esmolando à porta de sua grade huma palavra de soa delicioza garganta de freyra que iluminasse os meus caminhos escuros de copista.
Assim, jogo a manilha de copas, pera que Vossa Senhoria cubra a sua copa com huma mantilha feita com os tecidos de meu coraçam. E aguardo, como hum novilho aguardando o matadouro, como hum discípulo aguardando huma meza de mestres, as cartas de Vosso parecer.
Ainda hoje indago à bondade de Deos, e à maravilhosa intelligensia das letras de Vossa Mercê, porque fuy eu o elleito pera recolher e goardar as Cartas de Vossa Mercê. Terei sahido no seu jogo cósmico com Deos? Serei a carta do bobo, ou apenas bobo nas cartas?
Mas vejo que Vossa Mercê joga a Raynha de Copas: huma maõ inteligente, metaphora de Vossa Mercê. A dama que contém em si todos os coraçoens de sabedoria. E hum doiz de ouros: dezeja-me sorte? E para que eu poça comprar huma passagem para paysagens Invernozas, ofereceme hum vallete de paus. Naõ tenho, senhora, dinheyro pera valletes, e muyto menos pera chambre à sua altura. Mas se quizer acompanharme no xadrez inseguro que é ser portuguez hoje em dia, talvez possamos hir juntos para Berlim. He hum Oriente do Occidente. Prometo-lhe hum romance quente em que a altura de Vossa Mercê, e a largura de seos ditos serão as únicas medidas com que me cozerei.
E se naõ quizer seguirme, poiz é molher grande demais para sobmeterse aos pareceres de hum homem fracco & gasto, sayba entaõ que recolho a maõ com um Az de Trunpho - e que procurarei sempre que os meus trunphos e triumphos se escrevaõ echoando bem alto o nome eterno de Fellicianna.
Deos no lo livre e goarde. De Vossa Mercê cada vez maiz afeissoado,
Pêro de Senna-Lyno

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