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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2013

Crónicas de Berlinzâncio, XXXII: Layers

Para mim, esta cidade sempre teve camadas. Percorro as ruas e vejo desde a sua antiguidade até ao presente. Sou uma gota de água consciente num fio infinito e mudável a cada instante. Não esperava que a esta vida de camadas se sobrepusesse uma outra, ou melhor, duas outras: a das minhas memórias de Berlim, já, das minhas experiências anteriores. Lugares felizes, lugares já dolorosos, de um passado que ardeu tão depressa do coração à pele, que se gravou na cinza dos nomes. Há sítios em que passo, e cujas memórias me devolvem o estado de espírito completo dessas situações. Não me aterrorizam, pelo contrário: regresso a elas quase totalmente, revivendo passos, expressões, luzes, significados. São portas de sentido. A outra camada: como há espaços que se ligam com partes da minha vida. Portas que não abri, porque a educação ou o medo eram o seu guarda, o seu Cerbero; e que agora criam sentidos novos, quase salvíficos: porque cumprem passados negados. E como Berlim, passado e futuro também…

Jardins para o fim dos tempos: Mozart: Concerto para piano Nº 25

Crónicas de Berlinzâncio, XXXI: O Corvo

Quando o Outono vermelho foi mudado pelo longo Inverno, os pássaros chilreantes foram substituídos pela única ave que corta o branco frio de Berlim: o corvo. Na minha memória, para além dos corvos de S. Vicente, para sempre na história e na bandeira de Lisboa, o pássaro era irremediavelmente uma coisa negra e atacante, companhia da Maga Patológica, amante de cemitérios, a considerar cadáveres uma delícia. Entre a neve, ouvir as asas negras grasnar sobre a tranquilidade trazia qualquer coisa de perturbador. Até que comecei a escrevê-lo. Àquilo: o romance que escrevi aqui em Berlim, que é sobre Portugal. Tive duas semanas em que pouco me saía da pena. Foi quando o Inverno verdadeiramente começou. Aí, saía de casa e eram apenas os meus passos e o grasnar dos corvos. S. Vicente e os corvos berlinenses uniam-se sob o gelo e o frio como se fossem um só, cristalizados, imateriais. E cada vez que os ouvia grasnar, dentro ou fora de casa, eram já uma terceira coisa a chamar-me: o próprio livr…

Crónicas de Berlinzâncio, XXX: Metafisicas Frigoríficas

Foi a primeira vez na minha vida que comprei um frigorífico. O que fará isto de mim? Será que a minha vida será diferente, que comprando uma máquina de frio e calor, uma bomba de calor como me ensinou o Michael, eu me refrigerarei? Três semanas nesta casa sem frigorífico. Sobrevivi. O que nos não nos faz falta quando só construir o futuro nos faz falta. O frigorífico tem uma porta branca, sem nome nem história. Como as portas que importam, não se dá por ela. A minha vida em Berlim é feita destas portas, surpresas, inesperamentos, que se cruzam e atravessam. O aparelho é mais pequeno do que o espaço que tenho. Parece faltar alguma coisa em cima e nos lados. Gosto desta imperfeição na perfeição, esta segunda porta no relevo das coisas, desgeometria na organização. É sempre na falha que está o padrão, na pergunta nunca a resposta mas as chaves para a sua resolução. Há quatro meses, perguntei-me, depois de um acontecimento fortíssimo aqui, se os símbolos  são para viver ou atravessar. Esc…

Crónicas de Berlinzâncio, XXIX: Primaverão

Carta a uma miúda do século XVII, quando terminámos o nosso doutoramento tórrido

Carta a Sra. D. Felicianna de Milaõ, religioza no Mosteyro de Sam Deniz de Odivellas, escripta em emulação das suas metaphoras de jogos & beijandolhe as maons

Quando esta escrevo a Vossa Senhoria, uzo o pezar do coraçaõ e a allegria do tumullo. Pois sabe Vossa Mercê o quanto lhe quiz, e como o prezente dessa afeiçam doura e desdoura o jogo de cartas que hé a minha pobre hezistência. E pello pezar, jogo o Rei de Paus, que consigo foy verde. E pella allegria do tumullo, a carta da caveyra, o Az de Espadas, que naõ lhe toca, pois só Vossa Mercê consegue tornar immortais as cousas mais breves do mundo, como as cartas e os jogos que as suas maons implicam.
Na duraçam d'estes cinquo annos, fuy-vos fiel tanto quanto um poeta trintanário e uma religioza ma non troppo do seculo dezassete o podem ser. Muy aprendi com as prendas de Vossa Mercê. E estoulhe grato & devedor. Afrontozas vezes senti que Vossa Mercê me fogia, que comigo zombava, escondendo seus escritos. Quisme…

Crónicas de Berlinzâncio, XXVIII: Winter shirtless

O L. tem a teoria de que há camisas de Verão e camisas de Primavera, e de Outono e de Inverno. «Mas não tem a ver com calor ou frio, tem a ver com os padrões». Assim, o L. responde aos rigores do Inverno com padrões fortíssimos; e às cores reviravoltantes do Verão, sobrepõe-lhes um branco de neve.  - Não estás a viver nas camisas uma espécie de contrário, de contraste com o tempo? - É a única forma que eu tenho de existir, Pedro: sempre em contraste.
Nunca pensei ter uma teoria da vida a partir de padrões de camisas. E eu que pensava que tinha aprendido tudo sobre vida & moda, essas duas primas, uma libertina e outra solteirona, quando uma amiga me explicou há dias que também há carteiras de Verão e carteiras de Inverno.
Para mim, a única coisa que visto são estados de espírito de Verão e de Inverno. E em Berlim todos se alteraram. Com a neve e o frio, tenho uma energia implacável e uma boa disposição a toda a prova. Com o calor, sobretudo aquele sopro vermelho e turmóilico do ve…

Mars, März: o mês da guerra