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Eu dormi com Charles de Gaulle

Berlim-Montpellier, via Paris. Um vôo normal com escala, dos milhares que todos os dias atravessam o mundo. Mas não foi.
Deixar Berlim é para mim, já, uma espécie de dor física. Parece-me excessivo até para mim, mas atravesso as ruas com a sensação de que o faço pela última vez. Um encontro especialmente afectivo no dia anterior tornou esta partida ainda mais arrancada. Mas sobrepunha a isso o prazer de encontrar os meus quase irmãos em Montpellier, e de participar numa jornada de estudos sobre Poesia e Errância, para poetas italofónos, onde eu era o convidado hors-programme.
Assim que saio de casa com a mala, sou avisado:
- Olha que o vôo Paris-Montpellier foi cancelado. Há imensa neve em Paris.
Era inacreditável. O M., que tinha voltado de Paris no dia anterior, jurava que tinha tido sol - embora na viagem tivesse notado que havia neve, mas quando se aproximava da Alemanha.
- Bom, eu vou na mesma. Em Paris logo se vê.
Cheguei a Tegel satisfeito por ver o percurso dos vôos normalizados. É uma das qualidades dos alemães, don't crack under pressure, tudo se assegura como se a excepção fosse a norma.
Vi o check-in sem ninguém e lá fui lampeiríssimo pensando que me esperava um vôo calmo, longe das confusões prometidas, que já achava empoladas. 
- O seu vôo foi cancelado. Tem de dirigir-se ao serviço a clientes.
Lá fui. Encontrei uma conhecida, a Laura. Também tinha tido o seu vôo cancelado. Ficámos na conversa na longa, longa fila. Claro que veio logo um funcionário alemão da Air France com um carrinho de bebidas e comidas para minorar a nossa catástrofe. Eu estava descansado: se fosse tudo cancelado, ficava em Berlim.
Depois de duas horas de espera, em que as pessoas saíam inconsoláveis ou sorridentes como se tivessem estado num exame na Faculdade, a menina eficazmente me sussurrou que tinha lugar nesse vôo nocturno para Paris («não posso dizer alto, porque alguém pressionou para que voasse hoje, e a maior parte das pessoas não tem lugar neste voo»), lá me despedi da Laura e fui para o Starbucks rever o meu romance e dar graças a Deus por ter inventado um aeroporto tão simpático e eficaz como Tegel. Há até uns sacos de pano da Lufthansa que dizem mesmo «I love Tegel», talvez para convencer o Wowereit, o Presidente do Estado-Cidade de Berlim, que devia esquecer o Aeroporto impossível de Brandenburg, que ainda está atrasadíssimo.
Mesmo indo para um reles check-in com uma hora de antecedência, esperava-me, literalmente, o prenúncio do caos. Uma fila enorme. Foram chegando mais e mais funcionários, com uma boa disposição germânica a toda a prova. Passado 30 m lá fui atendido. Mas com uma má notícia: o meu vôo Paris-Montpellier tinha sido alterado para a manhã seguinte.
- Mas durmo onde?
- Não faço ideia. Quando chegar pergunte. Alguém vai tratar de si, fique descansado.
Preparava-me para uma noite de hotel às custas da Air France. Pareceu-me bem. A senhora deu-me duas senhas para comer, como pedido de desculpas pelos atrasos e confusões, que fui logo trocar por substanciais sandes germânicas.
O vôo saiu com atraso e com ligeiras complicações, apesar da simpatia absoluta do pessoal de cabine. Porém, ao chegar a Paris, o caos.
Primeira decisão: ir saber do bilhete ou ir buscar a mala? O bilhete. Uma senhora sozinha num quiosque disse-me que não era com ela, que fosse a outro serviço da Air France.
Mala: já circulavam algumas. Meia hora. Nada. Depois o aviso: "as malas em falta chegarão no vôo das 1h30 da manhã". Pronto. Uma noite sem mala e sem vôo. Bom, mas não me tinha perdido a mim mesmo. Nisto, quando saía, esfomeado, vejo uma última coisa a rodar, solitária, sob o olhar esfomeado dos sem-malas. Era a minha. Nem tudo perdido.
Mais um guichet, não era ali, e mais outro. Cinquenta pessoas à frente. Os bares a fechar. O aeroporto a adormecer. À minha frente, uma mãe e um filho brasileiros com sete malas cheias de compras queixavam-se do atraso da Europa, que no Brasil não era assim.
Valeu-me a caridade berlinense para matar a fome. Já a sede era difícil. A fila, enorme. Mas de novo, uma senhora aparece para tentar minorar a fila.
- Ah, o seu caso é especial. Venha comigo.
Lá fui para outro balcão com gente desesperada e aos gritos em francês, alemão, inglês. Um senhor careca tentou ver o que se passava. À minha frente, uma mulher alta e especialmente bonita discutia com uma funcionária miss paciência.
- Lamento, senhor, mas não consigo emitir-lhe o bilhete. E o seu bilhete não é de Charles de Gaulle, é de Orly. Agora não consegue ir para lá, está tudo bloqueado com a neve, não há transportes. Ou lhe mudo para amanhã ao 12h30 daqui, e tem de novo de amanhã pedir que lhe façam um bilhete definitivo, ou vai para Orly e paga o táxi. Nós pagamos metade. Mas pode chegar e ver o aeroporto fechado e sem condições.
As perspectivas não eram boas. Decidi ficar. A errância já estava. Faltava a poesia.
- E para dormir, há hotéis?
- Vamos encontrar condições para que fiquem no aeroporto.
- E comida?
- Irão ter consigo.
Peguei na mala. Sentei-me no chão. Tirei o casaco. Deitei-me. Vieram depois pessoas com mantas. Comida, nem pensar. Fui à casa de banho beber água à cão. A civilização é irregular, sem dúvida. Estas eram as «condições especiais». Não houve nada mais.
E dormi com Charles de Gaulle.
Terá sido ele que «fez tudo» para que eu apanhasse aquele vôo? Que «tratou de mim»?

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