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Crónicas de Berlinzâncio, XXVII: paredes doídas

Faço as malas para ficar, faço as malas para deixar.
Três malas escancaradas pelo chão, bocas abertas de três animais sequiosos: presente, passado, futuro. A mala do passado vai para Lisboa, com coisas que deixaram de fazer sentido, mas com portas abertas para ultrapassar (e claro, presentes). A do presente, com as coisas mais básicas, porque não sei ainda quantos dias mudo, fico, faço, começo. A do futuro, com as minhas coisas aqui, para levar para uma casa nova.
Olho em volta e vejo a casa. E de repente as paredes doem.
Esta casa foi onde estive mais tempo em Berlim. Olho para as paredes altas, com os seus estuques desenhados, as janelas autoritárias e seguras, a vista para a Passionkirsche. Ando pelo corredor e vejo da janela do quarto todas aquelas janelas onde parecia estar na janela indiscreta de Hitchcock. Sento-me à mesa da cozinha e regresso a cada jantar, a cada conversa, a cada cigarro fumado às escondidas das regras da casa. A cada pessoa que se sentou comigo a esta mesa, uns já longe de Berlim. Recordo as noites altas, em que as conversas eram uma estrada de estrelas acordadas, e todos aqueles dias de insónia em que a escrita parecia acordar-me e sentar-me a esta mesa, à espera do clarão fusco do sol tapado com nuvens.
Passo pelo quarto. Não preciso sequer de me lembrar: as paredes doem. A dor e a surpresa, a paixão e a partida, como são as duas mãos do afecto. Mas, sobretudo, é como uma parede de espelhos, onde eu vejo como cresci de cada coisa que me aconteceu aqui, da mais áspera solidão à sensação de que todo o cosmos era comigo.
Volto à sala. As malas comem as memórias no chão. Fico com os olhos baços. Recordo outro momento na vida em que fiz malas para o passado e para o futuro. A mesma luz do sol a aclarar a mala, a esclarecer o acto.
Pela janela, vejo a rua complexa, misturada, com os meus hábitos de meses, os lugares, as pessoas, mais e mais memórias, que me corre debaixo dos olhos.

Como faço sempre depois que deixo um lugar onde estive muito tempo, agradeço-lhe. Mas a esta casa ainda mais. Talvez em nenhum outro lugar do mundo eu tenha vivido tantos extremos, da maior felicidade à dor mais funda. Eu fui vivo aqui, como nunca.

Levo as malas para o futuro e penso quantas vidas antes da minha não terão aqui vivido o mesmo, nesta cidade de revoluções, guerras, muros, fins começadamente novos. E penso,  a caminho da minha nova casa, como as paredes são vidas.

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