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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2013

Eu dormi com Charles de Gaulle

Berlim-Montpellier, via Paris. Um vôo normal com escala, dos milhares que todos os dias atravessam o mundo. Mas não foi. Deixar Berlim é para mim, já, uma espécie de dor física. Parece-me excessivo até para mim, mas atravesso as ruas com a sensação de que o faço pela última vez. Um encontro especialmente afectivo no dia anterior tornou esta partida ainda mais arrancada. Mas sobrepunha a isso o prazer de encontrar os meus quase irmãos em Montpellier, e de participar numa jornada de estudos sobre Poesia e Errância, para poetas italofónos, onde eu era o convidado hors-programme. Assim que saio de casa com a mala, sou avisado: - Olha que o vôo Paris-Montpellier foi cancelado. Há imensa neve em Paris. Era inacreditável. O M., que tinha voltado de Paris no dia anterior, jurava que tinha tido sol - embora na viagem tivesse notado que havia neve, mas quando se aproximava da Alemanha. - Bom, eu vou na mesma. Em Paris logo se vê. Cheguei a Tegel satisfeito por ver o percurso dos vôos normaliza…

Crónicas de Berlinzâncio, XXVII: paredes doídas

Faço as malas para ficar, faço as malas para deixar.
Três malas escancaradas pelo chão, bocas abertas de três animais sequiosos: presente, passado, futuro. A mala do passado vai para Lisboa, com coisas que deixaram de fazer sentido, mas com portas abertas para ultrapassar (e claro, presentes). A do presente, com as coisas mais básicas, porque não sei ainda quantos dias mudo, fico, faço, começo. A do futuro, com as minhas coisas aqui, para levar para uma casa nova. Olho em volta e vejo a casa. E de repente as paredes doem. Esta casa foi onde estive mais tempo em Berlim. Olho para as paredes altas, com os seus estuques desenhados, as janelas autoritárias e seguras, a vista para a Passionkirsche. Ando pelo corredor e vejo da janela do quarto todas aquelas janelas onde parecia estar na janela indiscreta de Hitchcock. Sento-me à mesa da cozinha e regresso a cada jantar, a cada conversa, a cada cigarro fumado às escondidas das regras da casa. A cada pessoa que se sentou comigo a esta mesa,…