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Crónicas de Berlinzâncio, XXVI: No Language

Saí para fumar um cigarro na rua. Nevava chuva, nem uma coisa nem outra, a que prefiro chamar "Chuneve" - parece um nome de uma má marca de têxteis lusitanos, daquelas com fotografias de mulheres gordas e embasbacadas a sorrir, abraçadas a produtos fofinhos a cheirar a armário.
Um homem aproximou-se para entrar. Quis olhar para o horário da Livraria. Afastei-me. Ele analisou a informação como se estivesse a fazer um doutoramento sobre o assunto. Barba clara, olhos verdes, pouco mais alto do que eu. Não era Alemão de certeza.
E não era. Começou logo a falar tedesco, um visível Alemão italianizadíssimo.
Lá lhe arranhei umas coisas em Alemão. Que não, que o número 43 era mais à frente.
- Ah, stronzo! 
Pronto, ele iria à sua vida. Não foi. Um cigarro, claro que lhe dei. Reparei que tinha umas mãos invulgarmente longas para o tamanho do corpo. Não eram grandes, eram mesmo longas.
- Estou sempre a perder-me em Berlim, a ir para o lado errado da rua.
Geralmente não sou espertioso, mas esta cidade puxa-me pela língua.
- Se calhar é porque está na cidade errada.
Disse-lhe em Italiano. Isto porque, lentamente, o meu italiano, perdido há treze anos atrás quando fui expulso de Florença, começou a dar os seus primeiros passos. Mas assim que cheguei ao fim da frase pensei que tinha perdido já toda a minha lata acumulada em discussões burocráticas nas secretarias da Università di Firenze.
O tipo ficou parado a olhar para mim. Não sei se ia perder a paciência comigo, como o peão armado em automobilista que, também ontem, me empurrava no túnel de Stadmitte, a dizer que eu tinha de me encostar à direita.
- Eu falo quase italiano nenhum, mas percebo.
Ele olhou em frente, tirava longas baforadas do meu cigarro, ajeitou o cachecol longo que o fazia sair de um filme da Nouvelle Vague.
- Mas disse-me exactamente o que eu precisava de ouvir.

Disse isto pesarosamente.
Mudou para inglês. Eu disse que não era preciso: tínhamos as duas línguas mais próximas do Latim, haveríamos de nos conseguir fazer compreender.
- Latim? È vero! Alora, una lengua romanica!
Começou a falar francês, mas tropeçou na terceira palavra.
No language.

Como bons descendentes dos pretores romanos, encontrámos um consenso e cada um falou na sua língua românica.
O cigarro estava a acabar. Pensei que ele iria procurar o seu número 43 e eu iria, satisfeito, voltar para as minhas revisões de revisões. 
- Sou o G., muito prazer - apresentou-se.
- Pedro, freut mich.
E como me acontece aqui, lá me começou ele a contar a história de vida dele, que, por motivos óbvios, deixarei por aqui. Num italiano misturado com inglês e alemão, e neve - e tudo isto apenas por causa de um número de porta errado.

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