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Crónicas de Berlinzâncio, XXV: Night Bus to Hermannplatz

Apesar de todos os meus Berlinenses preferirem andar de autocarro, eléctrico e bicicleta do que de metro, eu sou tão admirador do fiável e sincrónico sistema de ubahn que nunca o traio. Porém, há dias, um filme tardio na Berlinale, seguido de uma acesa cerveja, levaram-me a Hermannplatz de autocarro.
Já não sei bem em que paragem eles entraram. Nem reparei neles. Éramos todos da mesma idade, 20-40, todos a voltar de saídas nocturnas. Eu estava sozinho e nem me apetecia ouvir o meu Brahms tardio. Como o autocarro tremia, nem tomava notas no meu caderno. Estava apenas a ser transportado, entre os pensamentos e a cidade, num movimento de pensamentos entrechocados.
Era um casal. Ele, de cabelos pretos revoltos, barba e pêra. Ela, loira. Falavam Espanhol, ele com imenso à-vontade, mas alguma pronúncia indeterminada, animado e vivaço como se Madrid fosse uma festa. Ela, suavemente, arrastando o seu castelhano entre cansaço e divertimento. Sentaram-se atrás de mim, pelo que a conversa se tornava impossível de desouvir.
Ele aprendera Espanhol depois de aprender Italiano, Francês, Catalão, Galego, e, claro, Português - que dizia preferir. Aprendera-o rapidamente só com filmes e sete sessões de conversa com uma colega de tandem. Há quem tenha mesmo jeito para línguas, ou com quem as línguas fazem milagres, digo eu, porque parecia lá ter vivido anos. Contava do seu projecto de poder dar aulas pelo mundo. Ela, encantada, louvava o espanhol dele, fazia uma pergunta ou outra, mas estava basicamente a passar do castelhano cansado e divertido para o castelhano fascinado.
E ele falava, animado e interessante, de como era bom aprender línguas, das diferenças que encontrava. De como tinha aprendido todas essas línguas, mais Inglês e a sua língua materna. Falava nove (eu perdi as outras duas que ele dizia saber). Depois ela contou que estava em Berlim em Erasmus, que gostava da cidade. Comecei a ouvir a cerveja falar. Ela não sabia bem em que rua estava. Ele, cavalheiro, disse que não se preocupasse, que era só mais duas ou três estações. Ela ria-se mais, ele continuava a falar de línguas, da península Ibérica, de como gostava de dar aulas. Foi então que houve um silêncio, seguido de um riso dela.
- Eu já tinha pensado pegar na tua mão - disse ele - mas não já. 
Ela roubou-lhe um beijo, ele aceitou, mas não se aproveitou. Queria continuar a falar, embora ela parecesse ansiosa que ele aprendesse a beijar em Castelhano, talvez.
Saíram em Hermannplatz, ela agarrada a ele, ele respeitador. A mulher de uma língua só - mas experiente - e o cavalheiro de nove línguas.
Eram duas da manhã. Passei pelo canteiro que para um amigo significa o fim do amor. E viu-os saltar a divisória de um salto só, os dois felizes. Os autocarros nocturnos salvam símbolos, é claro.

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