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Crónicas de Berlinzâncio, XXIV: I am sorry, but you are my character

Todas as vezes que lá vou, encontro-o. Duas vezes por semana, regulamentares, e algumas fora do calendário. Não há dia, não há hora, não há vez em que o não veja. No ubahn, no edifício para onde vou, no caminho. Sempre o mesmo casaco tipo II Guerra Mundial, o cabelo louro escuro cortado à escovinha de um lado, os olhos azuis quebrados. Mas sobretudo, sobretudo, aquela cara angulosa, que parece esculpida com violência e pressa; áspera mas inquietante, como se estivesse inacabada. Muitas vezes sozinho, outro com uma amiga com quem partilha café e cigarros.
«Donde é que eu conheço esta cara?», perguntei-me várias vezes. Claro que a cara é a cara dele, mas donde é que eu conheço?
Se fosse em Portugal, diríamos bom dia. Aqui cada um deita os olhos ao chão, e eu sem saber de onde o conheço, não lhe digo nada.

Há dias abri a minha pasta dos meus livros inacabados, ou em processo. Está lá um que se passa aqui perto há muito tempo atrás. Estive a lê-lo, crítico de mim mesmo. É uma actividade que me irrita, porque percebo porque é que os livros ficaram inacabados, chateio-me comigo, faço greve de opiniões durante um dia, e depois não há nada que me tire a falta de paciência que sinto comigo. Geralmente dedico-me à cozinha, depois.
Pois nesse dia em que lia o tal excerto, a coisa atingiu-me como um clarão. Como um murro numa cara esquinada, misteriosa: casaco, cara, olhos, gestos: o homem do costume é a personagem do meu romance.

Claro que recebi esta notícia como a confirmação de que o tenho de escrever - ao livro. Tal como, há meses atrás, a desaparição de um certo quadro me fez decidir não escrever outro livro (como contei aqui), o trânsito frequente da cara deste senhor é um símbolo de que tenho de escrever o livro.

E, claro, encontrei-o hoje de novo. Sozinho. Nevava suavemente, como na guerra. Perdi a lata e fui ter com ele.
- Desculpe, isto vai parecer-lhe esquisito. Mas eu sou escritor, e o senhor tem uma cara exactamente igual a uma personagem minha. 
Inexpressivo. Pensei que ia chamar os panzer.
- Era só para lhe agradecer, porque por sua causa vou acabar esse livro.
De repente, um sorriso.
- Isso é mesmo verdade?
- Sim. Sabe, sou escritor, trabalho com símbolos. E por isso achei que lhe tinha de dizer.
Silêncio. Eu fiquei a achar que eu próprio era parvo. Mas esta cidade tem outras regras. Para quem acredita em símbolos, é um paraíso.
- Então tome o meu email e conte-me quando acabar a história.

Não tive coragem de lhe dizer que a personagem dele é um assassino. Não lhe vou enviar um email, de certeza. Mas cumpri a minha dívida com ele. Mesmo que ele ache que encontrou um louco que lhe quer roubar uma cara.

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