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Crónicas de Berlinzâncio, XXIII: I want your smell

Era verdade que ambos tínhamos bebido demasiadas cervejas. 
Era também verdade que falar francês com muitos cigarros e -5º lá fora potenciava comportamentos excessivos.
É verdade também que pode ser perigoso viver apenas a escrever um romance e a flanar.
O certo é que começámos a falar da biografia do corpo. Do meu corpo, do dela. De como todos os gestos estão ainda por criar, porque todos os amantes têm de descobrir o lugar onde no outro, o ponto onde o trânsito das almas corre.
Eu pensei que falávamos apenas a partir da sabedoria do corpo; que sabíamos, como proprietários de duas massas corporais distintas, que o discurso do corpo e o corpo do discurso são entidades diferentes.
Mas as cervejas falaram por nós. Ou melhor, as cervejas dela falaram por ela; as minhas calaram-se por mim. 
Primeiro, quis o meu pullover. Depois, o meu cheiro.
- Sempre quis o cheiro de um poeta.
- ...
- Cheiram à essência das coisas.
- Não. É um perfume. Chama-se...
- Não. Cheira a cigarros, e a pele interior. A pele verdadeira, da alma.

Nunca ninguém tinha pedido o meu cheiro. 

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