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Crónicas de Berlinzâncio, XXII: Rihard

Bateram-me à porta de casa anteontem. Pensei que era o correio. Olho pelo olho da porta e vejo um tipo enorme, mais de 2m, com uma franja. Tinha um ar inofensivo, mas não era o carteiro. Pensei que fosse um vizinho a pedir um saca-rolhas (já aconteceu).
- Hallo. Pedro?
«Como é que esta torre sabe como é que eu me chamo?», pensei para mim. O tipo ainda era mais alto e esticado, tinha uma barbinha castanha-clara, olhos verdes, vinha vestido à artista: t-shirt e uma écharpe em cima de um fato de certeza comprado na "Colours" da Bergmanstrasse (um dia falo desta loja). Disse-lhe que sim.
- I'm Rihard, B.'s friend.
Pronto. E aqui assustei-me. A B. é outra rapariga cá de casa, que também não está cá. A verdade é que ninguém me avisou que vinha alguém. Senti-me responsável pela casa. Lá lhe disse que desculpava mas que não tinha sido avisado.
- Sim, ela está a tentar ligar-te desde de manhã.
Valha-me Nossa Senhora de Berlim, pensei para mim. Dei aulas até tão tarde ontem, que devo ter deixado o telemóvel em silêncio. 14 chamadas não atendidas, 8 mensagens. E isto já eram 2 da tarde. Peço ao moço para esperar e lá vejo várias mensagens da B. a dizer que este amigo vinha cá passar uma noite.
Lá lhe peço desculpa e mando-o entrar.
- Não, é bom sinal, estás a guardar a casa - disse com um sorriso.
Lá lhe mostrei o quarto, pedi desculpa num sms à B., e perguntei, à bom berlinense, se queria um café ou uma cerveja (não é preciso mais nada).
- Both.
«Estou bem servido», pensei para mim, a ver os meus 45 minutos que me restavam de escrita a desaparecer. É que o pessoal senta-se na cozinha e vai tudo a eito, conversas desde o tempo da pedra lascada e da vaca pintada.
Lá se apresentou, contou donde vinha, contou que vinha só passar uma noite, ia a caminho de Leipzig, e depois de Viena. Que isso é que eram cidades que estavam a dar, Berlim estava a morrer (oh, não, outra vez; será que também ia dizer que eu não era Católico?). Irritou-me um bocado. Depois de dez minutos de conversa, lá fui preparar-me para lhe dizer, à alemã, que tinha de ir trabalhar.
- So, you are a writer?
Lá lhe contei o que escrevi, lá lhe contei o tema, fomos por ali fora. Lá lhe expliquei, também como gosto desta cidade e algumas coisas que me acontecem aqui. Ele não abria a boca, só fumava um depois do outro e oscilava entre a cerveja e o café. As mãos eram grandes como pás - garanto-vos que nunca vi nada assim na vida.
- Wow, you're part of the Berlin sacred fire!
Pronto. E aqui pensei: ou vês longe e alto, ou és chanfradinho. Não percebi, disse-lhe.
Então o Rihard começou a explicar-me que todas as cidades precisam de seres com luz interior, pessoas que deixam tudo para serem instrumentos das cidades, para as fazerem renascer. Que foi assim com Roma, depois do fim do Império, com todos os michelangelos e afins. Que foi sempre assim com Bizâncio (aqui ganhou pontos). Que foi sempre assim com Londres, e Paris, e lá foi ele por ali fora.
Berlim, a precisar de mim? Era mais um casamento ao contrário, pensava eu.
- És muito simpático mas eu sinto o contrário.
A conversa durou até à minha hora de sair para ir dar aulas. Convidou-me para jantar. Lá lhe disse que só saía às 7h30, mas lá nos encontrámos no meu vietnamita preferido em Rosa-Luxemburg Platz. E falámos durante horas, só mandados sair.
O moço tem vinte e poucos anos, é designer, mas é muito dado a filosofia oriental e a magia. Disse-me que quer fazer um curso de druida, que os há, há. Que andou nos wicca, mas que não funcionou para ele, e que agora o que é preciso é que cada um seja celta por si próprio.
Já eram quase uma da manhã, arriscávamo-nos a ficar sem metro. E ficámos, a meio caminho: viemos de Potsdamer Platz até casa a andar, sempre a parar, porque ele encontrava mais uma ideia tão fantástica que tinha de parar para «sentir o fluir da ideia», com aquelas pázonas no ar a esbracejar.
O que posso dizer-vos é que a conversa continuou na cozinha graças ao turco da loja da esquina que vende cervejas pela noite fora. Eram 5 da manhã quando decidi que me ia deitar. Nisto, o Rihard olha para o relógio e diz-me:
- Ah, o meu comboio para Leipzig é daqui a uma hora!
Não tomou banho (penso que é druídico), agarrou na mala que praticamente não desfez, e saiu.
Deu-me um abraço quando se foi embora e disse-me:
- You are a true man of words, Pédrou.

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