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Crónicas de Berlinzâncio, XXI: Memórias de memórias de memórias

Éramos seis, entre franceses, alemães e portugueses, a discutir The Four Quartets, de T. S. Eliot. A tentar abrir um texto que abre as suas próprias perguntas com a memória das suas respostas.
E de repente, no início do 1º Quarteto, estes versos:
Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened
Into the rose-garden.

Uma possibilidade de uma possibilidade de uma possibilidade. Uma memória de uma memória de uma memória.
Parámos aqui, até nova discussão nos abrir as portas de jardins de jardins de jardins.

Hoje, percebo-o.
Uma memória de uma memória de uma memória é como a recordação de alguém, que antes foi tudo e que agora é vazio. É a memória de um sentimento que explodiu o corpo, e que agora é apenas um eco de um excesso perdido. É também, ainda, o presente, o tempo contido no tempo passado, quando, no espaço entre dois batimentos, sabemos que o futuro pode cair absurdamente no passado, e não regressar mais - tal como se perde quem se encontrou e que faz sentido de todos os caminhos do coração. É esse lugar-pessoa, desaparecido num instante.

Enquanto hoje fazia o meu caminho entre o verde esbranquiçado de Dahlem-Dorf, pensava como até este nome era uma memória de uma memória de uma memória: a aldeia de Dahlem, agora parte de Berlim, agora o centro da Universidade. Só o nome, só, ecoa os passos perdidos no passado.

Aquilo que não fomos regressa, como se fosse outro ser, e encontra-nos, numa encruzilhada de caminhos onde pensávamos já ser apenas nós a andar. É então que, nos próprios passos, a memória da memória se torna o futuro.

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