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Crónicas de Berlinzâncio, XX: Lietzensee




 Lietzensee, Charlottenburg. A neve caía, quase imperceptível, sobre o chão totalmente branco. Eu caminhava devagar (com a neve, reaprende-se a andar), não só pelo parque, mas na 2ª Sinfonia de Rachmaninov, 3º andamento. E andava, no parque e na música, entre dois dias: hoje e aquele dia em que a minha vida em Berlim mudou por completo.
Há mistérios assim, feitos tão da carne das feridas interiores, tão miraculosos e impossíveis como quando o tempo pára, nos olha nos olhos, e faz passado e futuro serem «um corpo apenas – é este o meu caminho». Escrevi isto há dez anos, não saberia nunca como o viveria a viver em tantas dimensões.
O lago, cada dia mais gelado. E as folhas, disfarçadas, submersas num manto eterno, interior, profundo. Estão ali e não estão – como eu.
Uma senhora de idade, que passava perto de mim, caiu no chão. Ajudei-a a levantar-se. Aceitou o meu braço, queria apoiar-se no muro, dei-lhe os dois, apanhei depois a boina branca que caiu. E recebi o mais bonito sorriso de Berlim. Confirmo se ficou bem, prosseguimos os dois, para a distância, unidos numa estranha ligação. Ela para mim é a cidade, que tantas vezes caiu, que se apoiou em muros.
Eu, para ela, sou um estranho, no sítio certo à hora certa.
Nunca sabemos o que damos uns aos outros.

Para mim, Lietzensee tem-me dado, cada um destes três dias em que o visito, neve mais ou menos, um caminho de perguntas. E eu quero tanto as respostas que caio. Chegou o tempo, disse-me a minha amiga Mónica, em que tens de saborear as perguntas e não querer já as respostas. Chama-se a isso infância. É isso.
Como uma criança, recupero as perguntas. E os parques. E as quedas. E a noção do presente absoluto. Rachmaninov fecha-se, acaba, e eu sou apenas um homem, dentro da cidade de neve, sabendo que eu e ela nos escolhemos, para todos os infinitos caminhos que há num caminho.

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