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Crónicas de Berlinzâncio, XVI: Nächtlichen Spaziergänge

Passeios nocturnos: é o que significa Nächtlichen Spaziergänge.
São as duas últimas palavras de um poema meu, traduzido pelo Daniel Falb no Verschmmuggel, há seis anos atrás. A verdade é que eu nunca tinha verdadeiramente vivido um passeio nocturno antes de Berlim.

Há seis anos atrás, eu era ainda um rapaz (da idade de M., na verdade), com medo de viajar, em Berlim pela primeira vez. O T., emocionado de voltar a Berlim, de onde era, bebeu um pouco demais. Não conseguia fazer o caminho de regresso para casa. Eram 4h da manhã. Era o meu segundo dia na cidade. Dei-lhe o braço e levei-o a casa. E depois, pela cidade desconhecida e deserta, o rapaz assustado que eu era descobriu sozinho o caminho de volta para o Hotel. Não foi bem assim, porque de facto o que senti é que a cidade se abria para mim, se revelava - que as ruas eram feitas pelos meus passos. Sentia uma segurança e uma liberdade que nunca tinha vivido numa cidade. Sem nenhum medo. Quando se compreende que o dia não é exterior, mas que o sol e a noite devem ser movimentos interiores: que cada um deve fazer mover os astros dentro de si.

Ontem não quis deixar que M. fosse para casa, sem transportes, quase às 4h da manhã. Fomos juntos, pela cidade toda noite. A essa hora os fantasmas já dormiam, embora tivéssemos encostado muitos ao pensamento do coração durante nove horas ininterruptas de conversa.
O chão: pisávamos o medo, antigo, já não de cada um de nós, mas uma coisa vaga e remota como uma ilha desaparecida no coração.
- A cidade está a começar - disse eu.
- A cidade está ainda a dormir, Pedro - disse M.
Passou por nós um distribuidor de jornais; depois uma carrinha da polícia, depois um padeiro.
- Tens razão.
Sentámo-nos às 4h30 da manhã num canteiro em Hermannplatz. O trânsito dos autocarros começava, três turcos discutiam acaloradamente, um louco falava connosco em inglês e alemão. Sentámo-nos os dois num sítio onde antes uma dor tinha criado o nada. E então pudémos separar-nos.
Eu voltei para trás, lembrando a semana que passei há cinco anos a viver na Hasenheide, a sentir de novo o abraço da igreja de Südstern quando apanhei o comboio para Istambul, o cheiro emocionadamente gasto do meu corpo quando voltei de Bizâncio.
Eu voltei para trás, pelas ruas todas noite, todas manhãs para mim. Porque acompanhei M. porque tinha medo, e eu fui com a minha liberdade. E isso distingue quando uma pessoa vê manhã na noite, ou noite de manhã. «A noite é mais profunda, mais profunda do que o dia pensa», dizia Nietzsche.
Eu fiz dois caminhos: o de M. e o meu. Com a plena certeza de que ao acompanhar M., o tempo se desdobrou, e eu passeei-me a mim próprio há seis anos atrás. 

NB: A fotografia que acompanha este texto deve ser vista aqui.

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